Carreira única: Boas vindas ao “Dr. Sushiman”…

Postado Quarta-feira 25 Agosto 2010

Nesta semana, uma notícia publicada num jornal de grande circulação chamou minha atenção. Destacada “em negrito”, informava: “Dr.Sushiman”. Como apreciador da comida japonesa, pensei nos sushis, nos sashimis, e na minha eterna tentativa de comer usando hashis, aqueles indefectíveis “pauzinhos” - inimigos fraternos que me esforço em conservar… Embora não consiga desvendar sua magia, o ritual que envolve a comida japonesa me encanta. Logo imaginei um novo profissional chegando na praça, um craque da culinária nipônica, que brindaria a todos com sua arte acrescida de um “doutorado”… Para meu espanto não era nada disso, o “Dr.Sushiman” estava avisando seu novo plano de vida, bem distante dos sushis e dos sashimis…

Dizia a notícia: “Sushiman há 22 anos, 10 deles à frente de um conhecido restaurante em Porto Alegre, ‘fulano de tal’, agora é bacharel em Direito. Ele se formou na PUC, no sábado, e festejou ao lado dos familiares e dos amigos num restaurante italiano. Ele não encerra aí sua trajetória acadêmica, já está fazendo pós-graduação em Direito Penal, de olho em uma vaga no próximo concurso da Polícia Federal”. Esse tipo de notícia deixa evidente uma tendência: a Polícia Federal atrai profissionais das mais diversas áreas. Gente que abandona atividades consolidadas para ingressar numa instituição que se tornou “objeto de desejo” de milhares de pessoas, certamente atraídas pelo prestígio e admiração que ela desfruta junto ao povo brasileiro.

O restaurante comandado pelo aspirante a policial federal é uma casa antiga no ramo. Sua página na internet informa que ele conta com diversas especialidades da culinária japonesa contemporânea. Que os pratos do buffet de sushi e sashimi são feitos na hora, em frente ao cliente. A culinária é considerada contemporânea em função da personalização e das variações do produto tradicional com ingredientes não convencionais como o sushi tipo italiano, (tomates secos, rúcula e mussarela de búfalo), dos sushis lights (sem uso do arroz), do sushi com chocolate (servido apenas na época da páscoa) e o sushi empanado (sushi de arroz revestido com alga e recheado com cream cheese, salmão e cebolinha), que é servido quente. Admito que sou ortodoxo nesta área - não gosto de mudanças, mas não posso negar que, se o “Dr.Sushiman” foi o criador dessa revolução toda, deve ser um profissional e tanto…

É louvável que ele esteja se preparando com afinco para enfrentar o concurso da PF. A instituição precisa de gente preparada. Certamente sua futura pós-graduação em Direito Penal será um diferencial que ajudará na qualificação do órgão. Mas algo me inquieta: não será mais um a comandar setores importantes de uma polícia que não dá importância a uma carreira policial com início, meio e fim? A falta de carreira única na PF possibilita essa situação. Enquanto policiais exercem seus ofícios numa atividade em que experiência é fundamental, alguns pretendentes a cargo de mando na PF não imaginam o que os espera, pois “bolar” sushis com tomate seco, rúcula e mussarela de búfalo, e sushis empanados, recheados com cream cheese, é algo bem diverso do ofício de polícia…

Nada impede que alguém pós-graduado em áreas jurídicas comece a carreira policial pelo início, até porque, hoje, curso superior é exigência para ingresso. Mas cargos de chefias deveriam ser conquistados incluindo a prática policial. Na linha de frente, todos poderão escolher a linguagem: poderão usar o “princípio da iniciativa das partes” ou o “faz a sua que eu faço a minha”. O “despejo coercitivo” ou o “sai batido gente boa”… A “execução de alimentos” ou o “quem não chora não mama” - devem estar preparados para as mais diversas situações… O intelecto refinado precisa ser juntado à prática e a tudo que ela representa - é evidente que um policial precisa conhecer os dois lados da moeda…

A cúpula de uma organização policial não precisa ser composta somente de “juristas”. Outros “Drs.Sushiman” certamente estão se preparando, iniciando suas pós-graduações, que hoje proliferam por toda parte. Nas Forças Armadas, eles não poderão ingressar como capitães ou coronéis. Na Medicina, serão obrigados a fazer residência. E, até na Igreja, não serão admitidos como bispos ou cardeais - precisarão conhecer a paróquia e seus paroquianos… Mas enquanto a porta estiver aberta, eles continuarão largando suas profissões para iniciar uma carreira por onde deveriam terminar. Eles sabem onde não dão a elas a importância que deveriam ter. Isso precisa ser corrigido!

Valacir @ 10:07 am
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