Quando janeiro se aproxima, começo a ficar inquieto – é tempo de Big Brother. Assisto ao BBB, não pretendo deixar de fazê-lo, mas existe algo que me incomoda pela insistência: o indefectível patrulhamento. Depois de ler o que alguns escrevem sobre o programa, saio de casa com a impressão de que todos que me olham comentam entre si: “ali vai ele, é o cara, ele assiste ao Big Brother, temos que intensificar a campanha no ‘Face’…”. Estou preocupado… Vou acabar me convencendo de que sou o único que olha o BBB, embora as pesquisas de audiência digam o contrário.
Volto pra casa e só bem mais tarde acesso o Facebook. Eles continuam lá, repetindo palavrões, ofensas. Escrevem de uma maneira que parecem acreditar que habitam um lugar privativo de gênios, logicamente invadido por eles sem a menor cerimônia, sem ao menos usarem pulseirinhas VIP no pulso… Certamente são íntimos de Borges, de Joyce (alguns escrevem em inglês); devem ter visto Nureyev no Kirov, e por aí afora. Não entro no mérito, cada um pode criticar o que quiser. Talvez um dia eles entendam que o BBB é entretenimento, não tem como objetivo instruir, formar, capacitar. Talvez um dia entendam que o BBB não foi criado para influenciar telespectadores. Só não consigo compreender por que eles olham algo que abominam.
Na condição de gênios, certamente não precisam da minha colaboração, mas longe de estabelecer qualquer tipo de confronto, elaborei uma lista com sugestões que, embora óbvias, podem ser utilizadas por eles na hora em que o BBB estiver sendo exibido. No carnaval, poderiam assistir ao desfile das Escolas de Samba, quando tomariam conhecimento de enredos tipo “A Visita da Nobreza do Riso a Chico Rei, num Palco nem Sempre Iluminado”, da Caprichosos. Ou assistir, na TV, ao desfile do “Galo da Madrugada”, do “Homem da Meia Noite”, na bela Recife, ou ainda acompanhar os Trios, na Bahia, durante quinze dias ininterruptos…
Outra dica é olhar o CQC, mas um aviso importante, desde que não seja “ao vivo”, pois o Rafinha pode ter voltado. Se ele queria “comer” a Vanessa e o filho dela, ele pode ter piorado – o risco é grande… Podem alugar filmes do Harry Potter, sem esquecer dos “Piratas do Caribe”. Assistir à TV Cultura, Sesc, Telecurso, o Globo Repórter, o Ecologia, o Ciência, por aí, sem falar nas missas e nos “milagres” dos Bispos, onde “deficientes visuais” voltam a enxergar, e “deficientes físicos” recuperam movimentos, apenas orando e pagando dízimo… Tem futebol americano, rugby, canastra e as sensacionais lutas com o Minotauro e o Minotouro em ação, enfim, tem gosto pra tudo.
Finalmente, faço um pedido para alguns amigos: durante os paredões peço que eles votem quando eu não puder (depois informo meus candidatos preferidos)… Prometo que não vou comentar com ninguém, não vou divulgar seus nomes na internet. Logicamente, também quero pedir perdão por olhar o BBB. Não levem a mal, não sou tão desprovido de inteligência, continuo querendo bem vocês, e não esqueçam: assisto ao Big Brother Brasil, mas sou um cara do bem – assisto ao BBB, mas sou limpinho… Não esqueçam que existe gente pior, como políticos sujos que fazem todo tipo de coisa ruim e aparecem em rede nacional negando tudo, e afirmando que não fizeram nada, que é tudo mentira. O Face precisa ser usado nestas horas, pau que dá em Francisco precisa dar em Chico…
Concluo dizendo que continuarei de olho nas redes sociais, que esse texto não é dirigido a ninguém em particular, é apenas um apanhado do que sinto no momento. É claro que milhões de pessoas continuarão vendo o BBB, da mesma forma que continuarão vendo tudo de bom e de ruim que a TV nos oferece. Numa democracia, cada um tem o direito de escolher.
PS: mentiras são verdades que não aconteceram…
Não gosto de praia. Não pretendo mudar de opinião, mas não quero que a intolerância tome conta de mim e, por isso, costumo visitar o litoral para desfrutar da companhia de pessoas que quero bem, até para entender a romaria que multidões fazem em direção ao mar. Foi o que fiz no fim do ano; dei uma olhada na orla, embora estivesse pensando no clima ameno da serra, na civilidade que a envolve, com seus restaurantes tomados por gente tranqüila e sem stresse. Na serra fico à vontade, esqueço o caos, especialmente, dos “guardadores” de carros, dos fiscais de trânsito e dos achacadores de toda a espécie.
Não vou repetir antigas queixas, mas me permito comentar algumas novidades que encontrei desta vez, que fizeram o ponteiro da minha paciência quase passar do limite. Convenci-me de que a máxima que diz que “em tudo na vida se pode tirar algo de bom” é verdade – descobri que a praia também não simpatiza comigo… Cheguei equipado: calção, chinelo, boné, bronzeador poderoso, óculos e todas as tralhas usadas para duelar com o maldito calor. Algo incrível aconteceu: o inverno me acompanhou. Só a caipirinha “compreendeu” o meu drama, dando o “apoio” que eu necessitava para suportar frio, vento e um mar gélido, tudo ao mesmo tempo, acompanhado ainda da falta de energia elétrica…
Numa estrada que não tem data para ser concluída, já percebia algo preocupante: muitas praias não teriam condições de acomodar todos. Preocupado, via a multidão viajando em todo tipo de carro, alguns tão antigos que seria um milagre chegarem ao destino. Já outros, corriam muito mais do que os anjos deles podiam voar… Na chegada, o óbvio: deslocamentos em cidades praianas só podem ser feitos a pé, com exceção de um novo tipo de criatura que infesta o litoral. Elas circulam em estilosas e minúsculas camionetas que dispõem de lugares para duas pessoas na cabine e de um espaço no bagageiro para acomodar umas duzentas toneladas de som…
Em frente ao mar, percebi que o equipamento não foi levado em vão, que a parafernália não ocupava um espaço tão grande à toa, e algo preocupante: seus donos não calibram suas paranóias… As camionetas andam por toda a parte, o barulho me fazia ter a impressão de que o meu coração ia saltar de dentro do peito… A música escolhida era a mesma o tempo todo: funk carioca e rap americano… Depois de ouvir funk e rap, senti uma saudade danada do pagode e do sertanejo… Até o Teló e o “Meteoro” eu tava encarando… Alguns detalhes são cruéis na praia: ceva a “oito pila”, e cidades pequenas com edifícios imensos, roubando o sol e a circulação de ar. Quando os funkeiros dão um tempo, logo são substituídos por bicicletas com alto-falantes e propaganda gravada, com uma intensidade incrível para suas insignificâncias…
O verão nos brinda com outras pérolas. Sou obrigado a escutar nos finais de semana: quantos carros estão se dirigindo para as praias, quantos acidentes aconteceram e ouvir um milhão de vezes que as pessoas não devem beber, não devem correr, devem usar cinto de segurança, usar o acostamento corretamente, ter cuidado com as crianças, etc.etc. Na volta, começa tudo de novo: quantos estão voltando, quantos passam por hora em tal lugar e, logicamente, a estatística informando a quantidade de mortos, quantos estão feridos, isto depois de todos aqueles intermináveis avisos e apelos. Detalhe: nunca ouvi alguém dizer: “A ‘moça da TV’ falou que não devemos correr, vou maneirar…”.
Finalmente, declaro que respeito posições em contrário, mas reafirmo que essas notícias não me interessam, nem me comovem, já as decorei, sei o que um cidadão maior de idade e responsável pode fazer, ou deixar de fazer. A escolha é de cada um – ponto. Quero que surjam outros assuntos no verão, também…
Mas não vale reportagens sobre enchentes e seca… Estou cansado de assistir nosso povo chorando na TV, desesperado, dizendo que perderam tudo, que a miséria bateu em suas portas. Dizem que o Brasil é hoje a sexta economia do mundo, precisamos, com urgência, ouvir também que a corrupção acabou, que recursos são usados na prevenção que evitará tragédias que se repetem. Enfim, está na hora de vivermos melhor. A felicidade precisa ser repartida por todos, em todas as estações.
1 – Comentários sobre o Barcelona.
2 – Manchetes sobre “reajustes” salariais para funcionários da “corte”…
3 – Pronunciamentos de ministros acusados de corrupção.
4 – Entrevistas enfocando a vida sexual de jogadores de futebol.
5 – Apelos para as pessoas não beberem antes de dirigir.
6 – Gente falando mal da Globo, e olhando a Globo…
7 – Idem “Jornal Nacional” e revista “Veja”.
8 – Ex-jogadores de futebol em atividade…
9 – Sertanejo “universitário”…
10 – Programas da Xuxa, Renato Aragão…
11 – Mulheres frutas, mulheres legumes…
12 – Indignação com a milésima reforma do Maracanã…
13 – “Trio Elétrico” do carnaval da Bahia na TV.
14 – Notícias sobre engarrafamentos em São Paulo.
15 – Explicações sobre novos planos de celulares.
16 – “Fundamentalistas” religiosos pedindo grana…
17 – E-mails alertando sobre perigos do mundo…
18 – Campanhas contra o cigarro, e passeatas a favor da maconha…
19 – Bandidos transferidos de prisões com alarde.
20 – Oposição trocando apoio por cargos…
21 – Parentes de políticos assumindo…
22 – Corruptos reassumindo…
23 – Divisão de Estados, e criação de mamatas…
24 – Exploração do petróleo por todos, e lucro para poucos.
25 – Facebook me incluindo em “Big Brother” sem ser consultado…
Certa vez, alguém disse que, entre as coisas menos importantes, o futebol é a mais importante – concordo! Talvez, por isso, o drama vivido por muitos torcedores durante o jogo Santos e Barcelona tenha me dado a impressão de que o episódio transcendeu a um mero espetáculo esportivo. Muitos comentaram a derrota do Santos, mas foi difícil explicar todo o seu significado. O Barcelona não só venceu, como humilhou o clube berço de Pelé que, no passado, reuniu jogadores que encantaram o mundo, chegando a conseguir uma trégua numa guerra para mostrar sua arte…
Foi impossível deixar de lembrar Nelson Rodrigues. Numa crônica antológica, depois do Brasil perder, em pleno Maracanã, uma Copa do Mundo para o Uruguai, ele disse: “os jogadores partiram para disputar a Copa de 58, e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: ‘O Brasil não vai nem se classificar! ’. A derrota frente aos uruguaios ainda faz sofrer na cara e na alma qualquer brasileiro. Eu vos digo: “O problema da seleção não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas”…
E não era, o Brasil venceu a Copa de 58 e mais quatro Copas do Mundo. Agora vejo que, depois da derrota do Santos, alguns querem que voltemos a nos sentir vira-latas. O Santos perdeu para um time que impôs um novo estilo de jogo, mas não se trata de uma equipe invencível. Ver Messi e seus companheiros é um privilégio, mas também vimos Pelé e Garrincha um dia… Os espanhóis precisam saber que não venceram uma escola composta de vira-latas, que o jogo foi apenas mais um capítulo de uma grande história. Precisamos lamber as feridas e voltar mais fortes, como já fizemos em outras oportunidades, apesar da descrença de muitos.
Depois da Copa de 1966, aconteceu algo parecido. O rei Pelé foi cassado na Inglaterra, saiu de campo com seus companheiros derrotado, machucado, quase humilhado. O mundo esportivo logo decretou que o futebol arte tinha morrido naquele dia, que o futebol força era irreversível e uma nova ordem estava instalada. O Brasil voltou de cabeça baixa, com os especialistas repetindo que o refinamento estava abolido em nome da força e do preparo físico. Não demorou mais do que quatro anos para os brasileiros mostrarem que a história não era bem assim. A maravilhosa seleção de 70, tendo à frente Pelé, no auge, mostrou ao mundo que o Brasil tinha se reinventado, que estava de volta com toda a sua magia.
Agora temos o “fantástico” futebol espanhol e seu representante máximo, o Barcelona de Messi. O mesmo que, não faz muito, integrando sua seleção, perdeu de goleada para o Brasil, em casa. Estamos por baixo de novo. Falam (outra vez) de uma nova maneira de se jogar futebol. Está na hora de nos reinventarmos novamente. A derrota do Santos foi emblemática, mostrou que o nosso futebol está doente. Os sintomas estão aí: vemos empresários serem “donos” de jogadores, assistimos aos nossos clubes investirem milhões em escolinhas, e de lá serem retirados meninos por atravessadores gananciosos. Quem defende esse estado de coisas precisa entender que o povo brasileiro não torce pra empresários, que os torcedores amam os clubes, razão de ser do futebol mais vitorioso do planeta.
Mais: “treinadores”, técnicos, e sei lá o nome que dão para essa gente, ganham fortunas inimagináveis sem nenhum compromisso com resultados. Chegam nos clubes com grandes “comissões técnicas”. Um deles chegou num certo clube com cinegrafista a tiracolo; outro mandou derrubar um muro… Outro mandou a direção de um clube calar a boca depois de uma derrota, enquanto outro disse que era tudo com ele, que tudo passava pela sua direção, que se não fosse assim pediria demissão…
Quanto aos atletas, o profissionalismo só é visto na hora da assinatura do contrato. Exigem altos salários, mas precisam ficar “concentrados” durante dias em luxuosos aposentos para não cometerem excessos… Se essa moda pegar, vão inventar “concentrações” em todo tipo de atividade… Já representantes de clubes de países quebrados levam nossos jogadores por valores ridículos. São apenas alguns tópicos, existem muitas outras coisas que precisam ser discutidas.
O complexo de vira-latas não pode colar. Vou pedir ajuda até para quem não está mais entre nós. Vou pedir socorro pro Garrincha, pro Tesourinha, pro mestre Didi, pro Dida, pro diamante negro Leônidas, pro mestre Ziza, pro queixada Ademir, e tantos outros gênios do nosso futebol. Essa gente que está à frente do futebol nos dias de hoje não pode jogar a história no lixo. Um novo complexo de vira-latas é tudo que não precisamos. A nossa escola é única, tratar a bola como as piranhas tratam carne não faz parte da nossa alma. Deixem isso longe da gente, no país do futebol, a magia ainda mora no coração do povo…
O espírito natalino começa a tomar conta da cidade. Quando chega dezembro, a nostalgia chega junto. Gente que não está mais aqui parece que volta para confraternizar, nos fazendo lembrar de um tempo em que a fraternidade era servida antes da sobremesa… Hoje ninguém mais dá bola pra essas coisas – “já eram”, dizem alguns… Tento me adaptar, mas confesso que não estou conseguindo entender como amigos “virtuais” substituem amigos de verdade, sem que ninguém se importe com isso. Até a “Missa do Galo” ficou distante, estranha, não serve mais pra nos fazer refletir sobre o que fizemos durante o ano que findou, sobre as nossas vitórias e derrotas, sobre os nossos amores e desamores… Penso nisso e me dou conta de que o papai Noel significava bem mais do que luzes coloridas importadas da China…
Dizem que saudosismo não está com nada, mas é difícil esquecer Natais que marcaram. Sei que estórias do passado não entusiasmam ninguém; talvez, por isso, eu as comente com alguém que me ouve com paciência e atenção – eu mesmo… Nesses momentos, divido lembranças que só interessam a mim; guardo estórias que não pretendo descartar, que me encheram de felicidade, juntamente com outras que quase acabaram comigo. Elas estão num cofre, igual àqueles que são abertos com senhas que misturam letras com números. É um cofre seguro, tem como guardião um coração que faz seu trabalho armado de respeito e ternura por tudo que vivi.
Hoje o Natal avisa que temos outras “obrigações”. Lembram-nos que é tempo de presentes: começa pelos mais próximos, passa pelos amigos, pela rapaziada que recolhe o lixo, até a turma que cuida do gás. Não podemos esquecer de quem nos entrega o jornal, do cara da pizza, da faxineira, do garçom, do flanelinha, e até do “artista” do semáforo – aquele que come fogo… Todos lembram que existem, que não podemos esquecer deles… Existem alguns, como o IPVA, IPTU, IR, que não faltam nunca… Chegam juntos, tomam a nossa grana, sem dó, sem piedade… Além dos presentes e dos encargos, temos também as festas do trabalho, da turma do futebol, do pessoal da faculdade e por aí afora. É tanta comida e bebida que começamos um novo ano com a barriga do tamanho do sentimento de culpa…
Volto à nostalgia, não tem jeito… Lembro que esperava o papai Noel com ansiedade. A “Missa do Galo” lotava as igrejas, enquanto eu aguardava o fim da celebração preocupado, pensando no meu pedido. A ceia era sagrada, ninguém viajava antes… Certas comidas não existem mais, mas ainda sinto o cheiro delas, lembro do amor que a minha mãe tinha por aquilo tudo. Recordar essas coisas me faz bem, principalmente lembrar de gente que há muito partiu, da maneira que me abraçavam, da emoção que isso causava. Lá longe, na fronteira com o Uruguai, as locomotivas “apitavam” com força, competindo com o barulho dos foguetes. Tudo passou, mas a esperança de dias melhores continua a mesma, nunca vai mudar.
Outro ano começa, temos que estar preparados para a luta. Mesmo com a grana curta, as férias estão aí… É hora de “descanso”, de recarregar as baterias… A praia nos espera, precisamos encarar estradas com pedágios caros, engarrafamentos, sem esquecer que ladrões também gostam do verão – viajam juntos, viraram companheiros de todas as horas… É isso aí, temos que calibrar a paranóia, enfrentar supermercados lotados, pagode acompanhado de sertanejo “universitário”, caipirinha, churrasco, filhos enchendo a paciência, e parentes “nos visitando” sem ajudar na despesa… Enfim, tudo apenas muda de lugar… Não temos escolha, ninguém admite não passar uma temporada na praia. É pegar o que sobrou do dinheiro e usar a disposição para enfrentar os “novos velhos” desafios.
Tudo recomeça, estamos vivos. Mais um ano inicia. Amanhã será, com certeza, o primeiro dia do resto das nossas vidas…
e-mail vala1@uol.com.br
blog www.valacir.com
Meus amigos, desta vez não vou falar de assuntos polêmicos, não vou pedir aumento salarial e muito menos reclamar que ainda não recebi aquele dinheiro atrasado… Na última vez que falei desses assuntos, recebi as mais diversas manifestações, desde carinho até reprimendas. Teve um leitor que disse que sempre me defendeu de críticas, mas que agora não o faria mais. Confesso que não entendi bem onde ele queria chegar. Não tem problema, faz parte do jogo, só quero que eventuais descontentes ou desafetos – que faço questão de preservar – continuem lendo; acho que não é pedir muito. Façam este esforço, como diz o título desta coluna, não esqueçam que estou aqui…
Mas vamos lá, desta vez o assunto é outro. Com o advento da informática e principalmente da internet, ler um livro começou a ficar difícil. Os lançamentos são muitos; passamos em livrarias, livros são comprados e acabam guardados intactos. Amigos nos presenteiam com obras que acabam ficando na fila, esperando a oportunidade. Olhei minha estante e muitos continuavam ali, com cara de súplica… Nas minhas férias procurei me aproximar deles, escolhi um com um carinho especial. Existem autores que a gente admira, que nos ensinam coisas que precisam ser preservadas, não podem ser esquecidas. Infelizmente, tudo é feito com pressa, os compromissos não dão trégua, não sobra tempo para o que realmente vale a pena…
O uruguaio Eduardo Galeano é um desses caras, jornalista, poeta e escritor, fala de vários assuntos, do futebol ao cotidiano. Com clareza e sentimento, nos revela o sentido da vida de maneira tocante, com um jeito que emociona, mostrando, muitas vezes, com histórias reais, que existem assuntos importantes além do dinheiro e do poder, algo que enfocou com maestria quando escreveu sua obra mais conhecida “As veias abertas da América Latina”, onde relatou a exploração sofrida pelas nações latino-americanas por parte de impérios que dominavam e dominam o mundo.
Dentre vários livros, escolhi um do Galeano. Optei pelo “O livro dos abraços”, foi um teste para as minhas emoções. Perdoem-me, mas preciso dividir com vocês dois momentos: num deles o diretor de um hospital de crianças em Manágua, na véspera de Natal, ficou trabalhando até mais tarde. Os foguetes espocavam e começavam a iluminar o céu quando ele decidiu ir embora, pois em casa o esperavam para festejar. Deu uma última passada nas salas, quando sentiu que passos o seguiam. O mesmo virou e descobriu que um dos doentinhos estava atrás dele. Era um menino, estava sozinho. Ele reconheceu sua cara marcada pela morte com olhos que pediam desculpas. Aproximou-se e o menino roçou-o com a mão: – Diga – sussurrou ele. – Diga para alguém que eu estou aqui…
Interrompi a leitura, pois algumas lágrimas duelavam comigo – teimavam em correr. O nosso egoísmo finge que histórias como essa não existem, pois elas mostram que apesar das máquinas e dos computadores nada mudou. Apesar da internet com suas novidades e e-mails inoportunos, o mundo continua igual. Os seres humanos continuam com dramas, com perguntas e respostas. Decidi continuar, mas ele foi implacável: contou outra história, de um outro menino que não conhecia o mar – o Diego. Seu pai decidiu mostrá-lo viajando em busca dele. Quando o encontraram era tanta a imensidão que o menino ficou mudo de tanta beleza. E, quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu: – Me ajuda a olhar!
Dei um tempo, resolvi refletir sobre as mensagens. A primeira: aquela que o personagem pede para dizerem que ele está lá… Que ele ainda não morreu e precisa de ajuda. A segunda: que existem coisas tão belas e emocionantes que precisamos pedir para alguém nos ajudar a olhá-las, alguém que nos ajude a perceber os detalhes do belo que nos cerca. Fiquei algum tempo pensando na importância de certas mensagens em momentos da nossa vida e no que elas podem nos ajudar. Acho que a função de um intelectual é nos fazer pensar, é nos mostrar coisas que não estamos vendo – ele conseguiu. Mas uma dúvida me atormenta: por que não tentamos perceber essas coisas sozinhos? Será que é preciso alguém nos dizer que existem crianças pobres em hospitais sussurrando para avisar que eles estão lá? Será que os nossos olhos não estão precisando de uma ajuda quando selecionam apenas o que queremos olhar?
Concluindo, digo a vocês que me reconciliei com minha estante. Coloquei os livros na ordem que pretendo lê-los. Os meninos do Galeano me fizeram entender definitivamente que não podemos viver afastados da emoção. Não esquecerei que outros meninos precisam de ajuda e que meus olhos podem pedir auxílio de outros quando a beleza é demais…
Numa época em que todos falam em esporte, quando o nosso país investe pesado na organização de grandes eventos, assisto a outro tipo de jogo, no qual o governo não mostra o menor interesse em realizar investimentos. É um jogo estranho, inusitado, pois, se de um lado temos “campeões” treinados, armados de maldade e de uma extrema crueldade, do outro, temos uma gente desarmada, pega de surpresa quando se desloca para o trabalho ou para um simples passeio. Mesmo com toda essa vantagem, uma regra chama atenção: elas favorecem os ladrões e vagabundos que cometem todo tipo de atrocidade, na certeza de que a máxima ‘o crime não compensa’ é conversa mole pra boi dormir…
Estou me referindo a uma praga chamada roubo de veículos. Hoje, quem sai de casa de automóvel não tem certeza de que voltará com ele, isso quando não for ferido ou morto. É fácil perceber que estamos numa guerra, embora alguns se recusem a admitir que ela foi declarada (faz tempo) pela bandidagem. Isso é constatado quando a imprensa noticia e até mostra as cenas de violência, com cidadãos agredidos, baleados e mortos. Ninguém desconhece onde os carros vão parar, onde eles são negociados. O destino deles é o chamado “desmanche” ou os “robautos”, um tipo de atividade que continua firme, mesmo à custa da dor e da infelicidade das pessoas. A atividade desafia a tudo e a todos, com um poder difícil de ser entendido.
No Rio Grande do Sul, uma lei estadual prevendo a legalização de milhares dos tais “desmanches” de peças foi aprovada com pompa e circunstância, já faz quatro anos… Depois de todo esse tempo, apenas 403 dos incríveis 3 mil “desmanches” conseguiram reunir os documentos suficientes para o cadastramento junto ao governo estadual, segundo estimativa da própria “Associação dos Empresários do Comércio de Peças Automotivas Novas, Usadas e Recondicionadas”…
Numa reportagem publicada por um jornal, um comerciante mostrou como a atividade deveria funcionar, como toca seu negócio. Lendo o que ele ensina, a pergunta é óbvia. Por que não é exigido de todos o mesmo procedimento? Diz o comerciante que só compra peças usadas em leilões feitos pelo poder público ou por empresas seguradoras. Que não compra de particulares (pessoas físicas). Diz que dispõe de computadores que emitem notas fiscais, tanto para compra do veículo a ser desmanchado quanto para a peça que será retirada e vendida ao consumidor. Tem um álbum de fotos dos veículos, e um fichário com dados de cada peça retirada.
Enquanto isso, o Departamento de Trânsito diz que “vai controlar a compra e a venda de autopeças usadas, gerenciando um banco de dados. Os “desmanches” serão interligados por computador a um sistema que permitirá ao órgão fiscalizar a atividade dos estabelecimentos”. Diz que “a empresa que revende peças deverá inserir no sistema a aquisição de cada automóvel para desmanche, em até três dias. Que só poderá ser desmontado o carro com registro de baixa no Detran, e o prazo máximo para desmanchá-lo será de 15 dias”. Revela ainda outros cinco tipos de controles, dizendo que o desrespeito às regras resultará em apreensão de peças e interdição do estabelecimento infrator, além de eventual processo penal. Ufa! Só me resta dizer: amém…
Mas preciso dizer também que não consigo entender por que os desmanches continuam com tanta força. Por que não cumprem a legislação? Vejo as autoridades organizarem campanhas meritórias, reprimindo quem dirige embriagado, quem dirige sem cinto de segurança, ou usa celular ao volante e por aí afora. Essas campanhas que usam centenas de servidores públicos e gastam recursos bancados pela sociedade não podem parar, mas o poder público poderia voltar sua vista também contra esse absurdo que são os “desmanches” e os “robautos” da vida, que incentivam o roubo de carros e enlutam as famílias brasileiras. Chega! Ninguém aguenta mais.
É inaceitável que num total de mais de 3 mil “empresas” que se dedicam à atividade da venda de peças usadas, somente 403 estejam regularizadas no RS. Alguém precisa explicar por que razão essa gente possui tanta força, a quem interessa essa situação. Alguém precisa explicar por que suas portas não são imediatamente lacradas. Se isso não for feito só nos restará dizer (gritar) para as autoridades que, para multarem quem bebe, quem anda sem cinto, ou usa celular no volante, os infratores precisam continuar vivos…
Não aprecio o jeito de José Sarney fazer política. Considero seu estilo um retrato do que o país tem de mais anacrônico, mas é inegável que ele tem muito a ensinar… Quem estiver interessado em entender a política brasileira, não pode deixar de prestar atenção quando ele concede uma entrevista. Diante de certas indagações, qualquer outro político silencia; ele não, revela as engrenagens que movimentam o Brasil com uma didática que impressiona. José Sarney revela, sem pudores, como funcionam as coisas no lado debaixo do Equador…
Não é novidade, Sarney tem história. Esteve no PSD, UDN, UDN “Bossa Nova” (de centro esquerda) e no PDS. Conseguiu algo difícil: ser presidente da Arena e do PMDB. Para os mais jovens, explico: seria algo como ser líder em Israel e na Palestina em épocas diferentes… Não dispensou nada. Elegeu-se governador do Maranhão com o apoio da Revolução de 64, cultivando, como ninguém, um senso de oportunismo admirável. Na vitória e na derrota, esteve sempre no lugar e na hora certa. Agora, em outro século, continua forte, sentado numa cadeira que lhe dá o poder que parece querer conservar até o fim de seus dias…
Na semana passada, ele deu uma entrevista exclusiva ao jornal “Zero Hora”, de Porto Alegre. Os jornalistas apresentaram o entrevistado lembrando que a sua marca é a discrição, identificada na economia de gestos, e na elegância com que trata os interlocutores. Disseram também que, se houve algum tipo de irritação diante de alguma pergunta, ela foi escamoteada sem que ele precisasse franzir a face… Foi da vaia do Rock in Rio ao uso do helicóptero da PM do Maranhão, sempre observando a famosa “liturgia do cargo” celebrizada por ele…
Vale a pena comentar alguns tópicos da entrevista. Uma passagem marcante acontece quando ele comenta os apoios políticos. Diz: “Lula foi à minha casa pedir apoio”. Muitos não tinham conhecimento desse fato, agora ele revela finalmente quem era apoiador, quem era apoiado… Aos 81 anos, o senador deixa claro algo que muitos ainda não tinham entendido.
Perguntado por que o Congresso não vota a reforma política, ele explicou que “o parlamento eleito por determinadas regras cria um conservadorismo que é difícil de mudar porque cada um considera que sua reeleição depende das regras com que foi eleito”. Simples pra quem é do ramo… Mas é lamentável que o eleitorado não saiba, exatamente, que regras afinal são estas…
Perguntado se ele tem tanto poder quanto lhe atribuem, disse que “gostaria de ter 1% do poder que a mídia lhe atribui”…, que “estão conferindo a ele inclusive os invernos bons e os ruins”. Que “pelo menos a seca do Rio Grande do Sul ainda não lhe foi atribuída”. Fiquei impressionado: como podem atribuir ao senador invernos bons e ruins… Mas ele tem razão, ainda “não lhe atribuíram a seca no sul”. E quanto às outras coisas que lhe são atribuídas? Não houveram respostas pela singela razão de que nada lhe indagaram…
Mas uma pergunta não poderia faltar. Por que o único presidente que não foi seu aliado – Fernando Collor – caiu? Ele esclareceu: “tenho sido aliado de alguns governos, mas já fui oposição durante muito tempo…”. Disse que “Fernando Henrique e Lula foram a sua casa lhe pedir apoio” e que “acha injusto quando dizem que apóia todos os governos”. E Dilma? Também foi a sua casa lhe pedir ajuda? – Não, “eu já tinha uma aliança com o PT”. Como sempre, usou poucas palavras para explicar muitas coisas…
Encerrou com um ensinamento antológico sobre o uso do tal helicóptero da PM do Maranhão para passeios. Confrontado com uma pergunta que poderia ser embaraçosa para políticos inexperientes, ele deu uma resposta lapidar, que não deixa dúvidas sobre seu pensamento sobre esse tipo de assunto: “Quando a legislação diz que o presidente do Congresso tem direito a transporte de representação, estamos homenageando a democracia, cumprindo a liturgia das instituições”. Não é à toa que a liturgia é algo sagrado pra ele…
Finalizando, digo que depois de ouvir tudo o que ele falou, senti vontade de me ajoelhar na sua frente e pedir perdão por ter imaginado, um dia, que ele seria capaz de cometer atos que pudessem ferir a “liturgia”… Não consegui deixar de lembrar o antigo ensinamento de que cada um tem a história de vida que merece. Grande Sarney!
Estava em dúvida, mas agora ela acabou. Vou meter a mão (sem luvas) no vespeiro. Vou correr o risco, a vida me ensinou que, depois de certa idade, um homem não pode ter receio de nada. Tomei esta atitude em respeito a um passado que não permite que eu continue calado… Tranqüilizo os amigos, estou no gozo de faculdades mentais plenas. Quanto aos desafetos, informo que responderei a indagações, mas precisam ser feitas de maneira educada, com a civilidade que deve existir entre colegas. Argumentos com a profundidade de um pires não me comovem, mas estou à disposição, pronto para absorver ideias que me engrandeçam. Eis aí minha declaração.
Declaro (com a mão longe da Bíblia) que entendo as demandas feitas atualmente na PF, reconheço que são relevantes. Mas evitando ficar “em cima do muro”, torno pública a minha opinião sobre elas, declarando de maneira solene:
Que sou a favor de policial da ativa ganhar auxílio fronteira;
Que sou a favor de policial da ativa ganhar auxílio paletó, fardamento;
Que sou a favor de policial da ativa ganhar hora extra;
Que sou a favor de policial da ativa ganhar adicional noturno;
Que sou a favor de policial da ativa ganhar auxílio moradia;
Que sou a favor de policial da ativa ganhar adicional por insalubridade;
Que sou a favor de policial da ativa ganhar adicional por periculosidade.
Informo também que não é minha intenção desencadear nenhum tipo de divisionismo, muito menos alimentar qualquer tipo de cizânia entre policiais inativos e ativos, muitos dos quais (compreensivelmente) estressados pela enorme carga de trabalho desenvolvida nos dias de hoje. Declaro, em especial, que a minha pessoa é a favor, também, de qualquer outro tipo de vantagem que venha a ser concedida a eles.
Mas, por favor, notem que estou me esforçando para entender algumas coisas. Está difícil… Alguém precisa me explicar por que devemos desconsiderar a luta desenvolvida durante tantos anos para que todos os policiais federais, ativos e inativos, recebessem subsídios dignos, no presente e no futuro.
Entendo que é difícil a situação dos dirigentes sindicais, pois os novos policiais estão distantes da aposentadoria. Fique claro, no entanto, que esta declaração não é um lamento, muito pelo contrário. Reafirmo que tenho orgulho do meu passado e das lutas que ajudei a travar em benefício da categoria. Reivindicações são salutares, mas é obvio que a PF não começou agora. Qualquer mudança nos contracheques precisa ser feita depois de uma discussão que envolva todos. Preciso saber o que será feito quando concessões de aposentadorias significarem passaportes para a miséria. Alguém precisa me explicar, também, qual a garantia que o governo dará no sentido de que no futuro não serão aumentados somente os penduricalhos.
Por isso, preciso tornar pública a minha inquietação. Como disse um dia T.S.Eliott, “a gente escreve para se libertar da emoção”, eu precisava escrever essas coisas – estou liberto. Informo que continuarei na trincheira, me desviando de possíveis incompreensões, mas com o coração aberto e a mente disposta a discutir em alto nível, tentando entender por que policiais inativos devem ser deixados de lado na hora em que mais precisam, num tempo em que já não podem exercer qualquer tipo de pressão.
Se nada adiantar, recomendo aos policiais inativos, até para não gastar com transporte, um “Curso de Desumanização por Correspondência” que vi anunciado na internet. Segundo o curso, depois de formados, eles poderão andar de cabeça erguida entre os mendigos, podendo também realizar-se em frustrações, aprendendo temas como irracionalização, compaixão e autocontrole, e filantropia involutiva… É uma sugestão, ninguém precisa seguir à risca…
Fico por aqui. Para os amigos, não precisa apresentação. Vala, federal inativo, gaúcho, fã do blues, do samba de raiz, e gremista. Para quem não me conhece, Valacir Marques Gonçalves, policial federal que, juntamente com outros sonhadores, ajudou a fundar o primeiro sindicato de policiais do Brasil – semente da luta que ajudou a PF a ter o prestígio que hoje desfruta e que estão tentando diminuir. Quem não concordar, basta olhar como estão sendo tratadas as operações que incomodaram corruptos recentemente, ou comparar os nossos subsídios com os de algumas carreiras que olhavam a PF de longe, com admiração e com o olho do tamanho do mundo…
Um jornal americano publicou um texto falando sobre o Brasil com o título “Guerra que não ousa pronunciar seu nome assola o Brasil”. Este tipo de “guerra” deve ser incompreensível para eles, os americanos ainda não entenderam que o Brasil não é um país convencional. Conformados, convivemos com a opulência e a miséria, com a paz e a violência, com a modernidade e o atraso, tudo ao mesmo tempo como se estivéssemos condenados por um determinismo histórico, sem perspectiva alguma de mudança.
Não foi difícil para eles perceberem que estamos em meio a uma guerra civil não declarada… Que impera a desordem, que acabou o respeito às instituições e às autoridades constituídas. Assaltos, agressões, seqüestros relâmpagos e assassinatos fazem parte da rotina dos brasileiros. Os noticiários informam, quase todo dia, que presidiários comandam quadrilhas de dentro das penitenciárias, que bandidos explodem caixas eletrônicos e carros fortes, derrubando paredes e tudo o que estiver por perto. A solução, por enquanto, é fechar os postos de atendimento…
Mas a imprensa americana deveria ter explicado as razões desse estado de coisas, uma delas todo mundo sabe: o tratamento que é dado aos policiais num país que exibe uma das maiores economias do mundo. Infelizmente, o quadro que emerge é pouco edificante: para combater bandidos armados até os dentes, policiais recebem salários miseráveis. Muitos precisam esconder a atividade que exercem para proteger suas famílias, sustentadas com o auxílio de trabalhos paralelos executados por eles durante as horas de folga…
É difícil entender porque os policiais são tão maltratados num regime que se diz democrático. Os governantes deveriam lembrar que, quando foi instituída a Democracia do jeito que a conhecemos hoje, um passo importante foi dado pela humanidade. No já distante século XVIII, Rousseau e Montesquieu ensinaram em obras, como o “Espírito das Leis”, que o Iluminismo inspirava um novo tipo de sociedade: o poder seria dividido entre o Legislativo, o Judiciário e o Executivo, os quais seriam encarregados de gerir o destino dos cidadãos. Seriam poderes harmônicos e independentes, mas com o mesmo peso, com o mesmo valor, com a mesma importância.
No Brasil não é bem assim, conseguiram mudar esta conquista. Para constatar isso, basta comparar o tratamento dispensado aos servidores dos poderes Legislativo e Judiciário com o tratamento que é dado aos servidores do poder Executivo, em especial aos policiais civis e militares. A pergunta é inevitável: por que só alguns servidores públicos exercem seus ofícios com nobreza em locais confortáveis, havendo sempre verba prevista no orçamento para a correção de seus salários e subsídios? É evidente que os policiais precisam ter o mesmo (correto) tratamento, pois a sociedade que remunera a todos, através do pagamento de todo tipo de imposto, o faz sem nenhum tipo de discriminação.
Continuo indagando. Por que a grande maioria das delegacias são pardieiros indignos, onde ninguém consegue ficar à vontade? Por que elas são desatualizadas, desconfortáveis, com xadrezes mal cheirosos e imundos? Não defendo a perda do status de ninguém, o que precisa ser explicado é por que somente os policiais devem ser penalizados, muitos dando até suas vidas em troca de uma existência miserável e sem reconhecimento? Eles não podem ser lembrados apenas nas horas de crise ou serem vistos como “capitães do mato” por uma elite insensível, acuada em fortalezas, e por burocratas incompetentes que insistem em ignorar essa realidade.
De maneira incompreensível, o Rio Grande do Sul, estado que ostenta alto índice de qualidade de vida e desenvolvimento, paga o pior salário do país para seus policiais militares, que, no limite de suas forças, tentam negociar. Enquanto isso, a população assiste queimas de pneus em estradas e são vistos bonecos fardados de policiais com cartazes no peito pedindo socorro. Os autores dessas ações não foram identificados, mas é evidente que isso não precisaria estar acontecendo, bastaria que o governo entendesse que em países civilizados a atividade policial é essencial. A queima dos pneus está tornando-se um símbolo desta luta.
Os americanos poderiam publicar também em seus jornais que, apesar da guerra civil não declarada, o Brasil apresenta coisas admiráveis. Dentre elas, um sistema eleitoral invejado, que disponibiliza resultados em poucas horas. Um fisco que permite aos cidadãos declarar seus ganhos em poucos minutos através da Internet, e, ainda, um sistema bancário exemplar, que funciona em tempo real em todo seu imenso território. Essas são algumas conquistas, são as “crianças” saudáveis e bonitas, geradas por pais e mães orgulhosos. Os policiais precisam fazer parte desta modernidade. Essa “criança” precisa ser tratada com o mesmo carinho.