Postado Sábado 11 Outubro 2008
Sou um dos dos milhares de brasileiros que fazem parte da estatística dos que já foram feridos numa guerra urbana não declarada. Fui assaltado, à mão armada, em duas oportunidades. Num deles, levei um tiro no rosto. Depois desses episódios, meu jeito de me relacionar com o mundo mudou, quase não me reconheço. Constato isso toda vez que preciso me deslocar de carro e alguém surge pedindo uma ajuda ou vendendo algo. Fico tenso, não consigo deixar de ver, em cada um dos que se aproximam, um dos marginais que atirou em mim - a associação é imediata. Luto para abandonar esse sentimento, mas está difícil, nem sempre consigo… Isso me preocupa, não me sinto bem tentando controlar uma agressividade que me faz mal.
Dias atrás, fazia meu trajeto para o trabalho. Num dos cruzamentos mais movimentados da cidade, aproximou-se um homem e pediu dinheiro. Não gostei da “aparência” dele e do modo como se dirigiu a mim. Disse um não, definitivo. Ele ficou transtornado. Olhou-me com raiva e bradou: “mas cara, como não tem dinheiro e anda num carrão desses?”. Esclareço que não era um “carrão”, embora ache que tenho o direito de possuir um, se puder comprá-lo. Por tudo que passei, imediatamente peguei a arma que (erradamente) continuo a portar. Ele seguiu gritando. Felizmente o sinal abriu, segui meu caminho, aliviado por não ter sido obrigado a cometer um desatino. Não quero posar de destemido ou corajoso, comento o fato apenas com a intenção de ressaltar um drama que virou rotina na vida de muitos brasileiros. Aquela cena não saiu da minha cabeça o dia inteiro, não consegui pensar noutra coisa.
Nesta semana, outro se aproximou. Ainda com a cena anterior na cabeça, ignorei o cara, fiz de conta que ele não existia. Mas ele existia… Não se conformou e disse: “meu amigo, estou apenas vendendo um jornal, feito pelo povo da rua…”. Complementou: “sou um dos que faz o jornal, dá uma força”. Talvez, pela formação jornalística que possuo, vi, no cara, um “colega”. A afirmação de que o jornal era feito pelo “povo da rua” me comoveu, pois nunca imaginei ver esse tipo de gente fazendo um jornal. Fiquei com vergonha: não tenho o direito de tratar seres humanos com tamanho preconceito. A bala que ainda está no meu corpo não pode me tornar um ser insensível. Lembrei de que não estou com a mesma raiva dos bandidos ricos que cometem todo tipo de falcatrua e continuam livres, protegidos pelos poderosos de plantão. Paguei o valor pedido e guardei, com cuidado, o jornal feito pelo “povo da rua”.
Cheguei em casa e li o jornal. O mesmo tem o sugestivo nome de “Boca de Rua”. No expediente, é explicado que ele é produzido por “pessoas em situação de rua de Porto Alegre”, sob a supervisão da Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação, “uma entidade com o objetivo de promover a discussão da imprensa de forma crítica e consciente e de incentivar projetos sociais ligados à comunicação”. Na segunda página, os “jornalistas” revelam a dificuldade para produzir o “Boca”, nome carinhoso que se referem a ele. Afirmam eles: “primeiro dizem que a gente tem que trabalhar. Daí, se trabalha no “Boca de Rua” dizem que não é trabalho, que é coisa de vagabundo. Só conseguem ver o trabalho da forma comum: na frente do computador, no mercado, na farmácia, na obra…”. Prosseguem: “O nosso trabalho é diferente, é alternativo, mas é trabalho, sim. Para quem não sabe, temos que comparecer às reuniões, discutir as regras, fazer treinamento, escolher os assuntos, entrevistar, fotografar, fazer as notícias e depois vender o jornal”.
Numa das matérias informam que fizeram uma pesquisa, por amostragem, com o povo das sinaleiras, para ver quem realmente são essas pessoas. Foram entrevistadas 24: 18 eram trabalhadores e seis pediam. Dezenove garantiam que o sinal era seu ganha-pão, dois disseram que era para ajudar a família e dois, para sustentar a dependência da droga. Dizem eles que a diferença dessa pesquisa é que as próprias pessoas que estão lá nos semáforos falaram, em vez de falarem por elas. Dizem, também, que os jornais falam dos moradores da rua como se eles fossem “vagabundos”, “bandidos” e achando que eles ficam esmolando nas sinaleiras só pelo prazer de constranger as pessoas. As pessoas que fazem o jornal acham que essa é uma forma de jornalismo hipócrita, que ouve só um lado da história. Não vou entrar no mérito, mas acho que, como em tudo na vida, todos os lados precisam ser ouvidos… É o que acontece com os que não vivem nas ruas…
Finalmente, deixei para o fim, o que, diferente de nós, os moradores de rua consideram constrangimento - não custa nada sabermos: constrangimento é chegar perto de um carro e ver o vidro fechar na hora… É ser xingado sem ter feito nada. É ter que ouvir um “não tem nada pra malandro!”. É acordar embaixo de uma aba com um cara jogando um balde d’água gelada. É acordar, não ter nada para comer e ter que revirar lixeira para engolir algo. E o maior de todos os constrangimentos é ser ignorado. É quando nem olham para eles, quando fazem de conta que eles são invisíveis. Como se fossem ninguém, como se fossem nada.
Foi bom ter lido o jornal. Foi bom ter tomado conhecimento do “Boca”. Talvez ele me ajude a olhar os brasileiros que moram nas ruas de outra maneira. Talvez o “Boca de Rua” me ajude a perceber que os miseráveis que se aproximam dos carros para pedir uma ajuda ou vender algo não são culpados pelo aconteceu comigo. Que eu, e muitos outros, não temos o direito de olhar essas pessoas como se elas fossem ninguém, como se fossem nada…