Como se a gente fosse ninguém, como se fosse nada…

Postado Sábado 11 Outubro 2008

Sou um dos dos milhares de brasileiros que fazem parte da estatística dos que já foram feridos numa guerra urbana não declarada. Fui assaltado, à mão armada, em duas oportunidades. Num deles, levei um tiro no rosto. Depois desses episódios, meu jeito de me relacionar com o mundo mudou, quase não me reconheço. Constato isso toda vez que preciso me deslocar de carro e alguém surge pedindo uma ajuda ou vendendo algo. Fico tenso, não consigo deixar de ver, em cada um dos que se aproximam, um dos marginais que atirou em mim - a associação é imediata. Luto para abandonar esse sentimento, mas está difícil, nem sempre consigo… Isso me preocupa, não me sinto bem tentando controlar uma agressividade que me faz mal.

Dias atrás, fazia meu trajeto para o trabalho. Num dos cruzamentos mais movimentados da cidade, aproximou-se um homem e pediu dinheiro. Não gostei da “aparência” dele e do modo como se dirigiu a mim. Disse um não, definitivo. Ele ficou transtornado. Olhou-me com raiva e bradou: “mas cara, como não tem dinheiro e anda num carrão desses?”. Esclareço que não era um “carrão”, embora ache que tenho o direito de possuir um, se puder comprá-lo. Por tudo que passei, imediatamente peguei a arma que (erradamente) continuo a portar. Ele seguiu gritando. Felizmente o sinal abriu, segui meu caminho, aliviado por não ter sido obrigado a cometer um desatino. Não quero posar de destemido ou corajoso, comento o fato apenas com a intenção de ressaltar um drama que virou rotina na vida de muitos brasileiros. Aquela cena não saiu da minha cabeça o dia inteiro, não consegui pensar noutra coisa.

Nesta semana, outro se aproximou. Ainda com a cena anterior na cabeça, ignorei o cara, fiz de conta que ele não existia. Mas ele existia… Não se conformou e disse: “meu amigo, estou apenas vendendo um jornal, feito pelo povo da rua…”. Complementou: “sou um dos que faz o jornal, dá uma força”. Talvez, pela formação jornalística que possuo, vi, no cara, um “colega”. A afirmação de que o jornal era feito pelo “povo da rua” me comoveu, pois nunca imaginei ver esse tipo de gente fazendo um jornal. Fiquei com vergonha: não tenho o direito de tratar seres humanos com tamanho preconceito. A bala que ainda está no meu corpo não pode me tornar um ser insensível. Lembrei de que não estou com a mesma raiva dos bandidos ricos que cometem todo tipo de falcatrua e continuam livres, protegidos pelos poderosos de plantão. Paguei o valor pedido e guardei, com cuidado, o jornal feito pelo “povo da rua”.

Cheguei em casa e li o jornal. O mesmo tem o sugestivo nome de “Boca de Rua”. No expediente, é explicado que ele é produzido por “pessoas em situação de rua de Porto Alegre”, sob a supervisão da Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação, “uma entidade com o objetivo de promover a discussão da imprensa de forma crítica e consciente e de incentivar projetos sociais ligados à comunicação”. Na segunda página, os “jornalistas” revelam a dificuldade para produzir o “Boca”, nome carinhoso que se referem a ele. Afirmam eles: “primeiro dizem que a gente tem que trabalhar. Daí, se trabalha no “Boca de Rua” dizem que não é trabalho, que é coisa de vagabundo. Só conseguem ver o trabalho da forma comum: na frente do computador, no mercado, na farmácia, na obra…”. Prosseguem: “O nosso trabalho é diferente, é alternativo, mas é trabalho, sim. Para quem não sabe, temos que comparecer às reuniões, discutir as regras, fazer treinamento, escolher os assuntos, entrevistar, fotografar, fazer as notícias e depois vender o jornal”.

Numa das matérias informam que fizeram uma pesquisa, por amostragem, com o povo das sinaleiras, para ver quem realmente são essas pessoas. Foram entrevistadas 24: 18 eram trabalhadores e seis pediam. Dezenove garantiam que o sinal era seu ganha-pão, dois disseram que era para ajudar a família e dois, para sustentar a dependência da droga. Dizem eles que a diferença dessa pesquisa é que as próprias pessoas que estão lá nos semáforos falaram, em vez de falarem por elas. Dizem, também, que os jornais falam dos moradores da rua como se eles fossem “vagabundos”, “bandidos” e achando que eles ficam esmolando nas sinaleiras só pelo prazer de constranger as pessoas. As pessoas que fazem o jornal acham que essa é uma forma de jornalismo hipócrita, que ouve só um lado da história. Não vou entrar no mérito, mas acho que, como em tudo na vida, todos os lados precisam ser ouvidos… É o que acontece com os que não vivem nas ruas…

Finalmente, deixei para o fim, o que, diferente de nós, os moradores de rua consideram constrangimento - não custa nada sabermos: constrangimento é chegar perto de um carro e ver o vidro fechar na hora… É ser xingado sem ter feito nada. É ter que ouvir um “não tem nada pra malandro!”. É acordar embaixo de uma aba com um cara jogando um balde d’água gelada. É acordar, não ter nada para comer e ter que revirar lixeira para engolir algo. E o maior de todos os constrangimentos é ser ignorado. É quando nem olham para eles, quando fazem de conta que eles são invisíveis. Como se fossem ninguém, como se fossem nada.

Foi bom ter lido o jornal. Foi bom ter tomado conhecimento do “Boca”. Talvez ele me ajude a olhar os brasileiros que moram nas ruas de outra maneira. Talvez o “Boca de Rua” me ajude a perceber que os miseráveis que se aproximam dos carros para pedir uma ajuda ou vender algo não são culpados pelo aconteceu comigo. Que eu, e muitos outros, não temos o direito de olhar essas pessoas como se elas fossem ninguém, como se fossem nada…

Valacir @ 5:27 pm
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Brasil: O nosso coração parou de bater - só apanha…

Postado Sexta-feira 3 Outubro 2008

De uns tempos para cá, algo está me entristecendo. O que está acontecendo com o nosso país? Viramos mulher de malandro? Dá a impressão que sim, pois apanhamos seguidamente e continuamos apoiando os agressores… Atualmente, qualquer cachorro mais atrevido nos morde impunemente. Acho estranho! Esse papel de Judas nunca foi nosso! Parece que o Brasil virou solução para certo tipo de gente. Antes, batiam nos americanos, colocavam sempre a culpa nos “imperialistas ianques”… Agora, quando acontece uma eleição na América do Sul, fico tenso. Espero, com preocupação, a abertura do “saco de maldades” do candidato vencedor e tento imaginar a diabrura da vez. De que seremos acusados? O que vão nos tomar na “mão grande”? Isso me faz lembrar um samba antológico, quando o poeta dizia “o coração dos outros bate, o meu só apanha…”.

Tudo começou na Venezuela. Com a criação da “República Bolivariana”, o Brasil cedo entendeu o que isso significava. O badalado presidente da tal “república” , como primeira providência, mudou unilateralmente os contratos de exploração de petróleo, e determinou o confisco dos campos das empresas que operavam no país por meio de contratos de serviços, entre elas a Petrobrás. Por intermédio de uma empresa estatal, o governo venezuelano determinou o confisco. Enquanto as companhias européias e americanas lutavam pelos seus direitos, a Petrobrás aceitava passivamente a ilegalidade. Os brasileiros, até hoje, não tiveram uma explicação convincente para o que aconteceu.

Eleição no Paraguai! O novo presidente (um ex-bispo da igreja católica) declarou logo que iria rever o tratado de Itaipu. Sempre ouvi dizer que a usina foi construída com o dinheiro do povo brasileiro, que o sócio estrangeiro entrou somente com a metade da água… Que teria ficado acertado que eles venderiam a energia excedente por um preço razoável que compensasse a construção. Agora viramos “exploradores”. O novo presidente quer rever o acordo, quer aumentar o pagamento ao seu país pela metade da água cedida com tanto esforço… Acho que isso poderia ser resolvido facilmente: bastaria que eles pagassem o valor que caberia a eles quando a usina foi construída. Se tomassem essa providência, certamente não haveria problema em rever o tratado. Mas parece que isso não é considerado. Eles já perceberam que o Brasil está admitindo todo tipo de pressão, que nos transformamos nos “cristos de plantão”…

A Bolívia também não deixou barato. Com aproximadamente 65% da população de origem indígena, foi eleito, com justiça, o primeiro presidente indígena no país. Empossado, o mesmo identificou os responsáveis pelos problemas bolivianos: é fácil adivinhar a escolhida para vilã - a Petrobrás, é claro. Invadiram suas instalações. Confiscaram os bens da companhia, que também foi ocupada por tropas militares. A reação foi tímida, o governo brasileiro achou que isso não tinha importância, embora a quantidade considerável dos investimentos realizados. Como sempre, fica difícil entender por que o governo brasileiro demonstra uma atitude tão passiva. Mais: todo dia temos uma ameaça de corte do envio do gás boliviano que - agora ficamos sabendo - dependemos para o funcionamento das indústrias do sul do país. Alguém precisa explicar por que razão as assinaturas constantes nos contratos não foram honradas. Alguém precisa explicar o que aconteceu e por que o Brasil aceita tanta truculência, tantos atos de hostilidade.

Temos agora o espetáculo proporcionado pelo dirigente do Equador… O mandatário equatoriano expulsou uma construtora brasileira que fazia obras no país com dinheiro emprestado do BNDES - trocando em miúdos: dinheiro do povo brasileiro. Prendeu dois engenheiros que não foram soltos nem com um pedido do governo brasileiro, segundo diz a imprensa. Parou a obra e diz que não cumprirá os contratos. Eles também perceberam que rasgar contratos assinados com brasileiros é tarefa fácil, não dá em nada. Como sempre, o país teve uma tímida reação, enquanto o povo assistiu a tudo sem entender nada. Afinal de contas, esse dinheiro não faz falta, não poderia ser utilizado para resolver nossos problemas?

A “estratégia” usada pelos nossos governantes precisa ser explicada sem demora. Eles têm a obrigação de explicar por que admitem o desperdício de recursos no exterior. Se existe tanto dinheiro sobrando, os contribuintes precisam exigir do governo que essa “riqueza” seja usada para solucionar os nossos problemas. Recentemente assisti na televisão a oitocentas pessoas tentando marcar, sem sucesso, consulta com médicos cardiologistas numa grande capital. Existem, no estado que resido, vinte e sete mil pessoas presas (tais quais animais) num sistema prisional que suporta apenas dezessete mil. Embora exista o famoso PAC, precisamos, com urgência, investimentos em segurança pública, em saúde e na construção de presídios. Os recursos gerados pelos brasileiros não podem ser desperdiçados. Isso precisa ter um fim.

Valacir @ 3:19 pm
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Dos “cachorros loucos” ao plano de carreira: o click tem a resposta…

Postado Sexta-feira 26 Setembro 2008

Quando acesso a internet, me deparo com todo tipo de pergunta. Para algumas, a resposta é fácil, outras precisam de reflexão: cotas raciais, libertação de gansters, lei seca, pena de morte, casamento gay, forca para corruptos e por aí afora… A interatividade é total, com um click sabemos a opinião de milhões de pessoas, que acabam antecipando uma tendência próxima da realidade. As pesquisas apontam uma direção, mas podem ser impiedosas - jogam na cara dos internautas verdades que muitos fazem questão de não ver. O click permite fazer, também, as mais diversas escolhas, e até dar um fim em grandes amores e amizades. Não é preciso dizer que, da mesma maneira, os afetos podem ser reatados ou resgatados. Do nascimento à morte, no século vinte e um, apertar uma tecla virou algo importante, decisivo.

As teclas trouxeram a comunicação instantânea. Recebemos notícias a todo o momento - de conhecidos e desconhecidos. Existem os que resistem ao modernismo: abrem seus e-mails uma vez por dia; outros conseguem resistir até uma semana… Confesso: estou entre os que não resistem mais de duas horas… O e-mail é certeiro, direto, não admite desculpas, emite até nota de recebimento… Ele acabou com a carta que “não chegava”, não há mais espaço para a sofrida expectativa. A discussão cara a cara também é coisa do passado, tudo é resolvido com um click. Não sei se está melhor ou pior, mas ficou fácil dizer coisas difíceis - e até confessar…

Acontece de tudo quando alguém aperta uma tecla. Para o nosso infortúnio, a bandidagem está adaptada aos novos tempos: nesta semana li que uma quadrilha entrava em agências bancárias de olho na retirada de dinheiro pelos correntistas. Através do celular, avisavam aos comparsas os detalhes da operação. Uma das vítimas, com medo dos assaltos, separou as notas em dois pacotes e escondeu um. Quando foi abordada na rua, entregou o de menor valor, mas, com surpresa, ouviu o assaltante dizer: “quero o outro, o que está escondido”. Com alguns clicks, já tinham avisado que o dinheiro estava dividido… A vítima ainda levou uma reprimenda do assaltante que, aos brados, perguntou: “tá querendo ficar com o ‘meu’ dinheiro, cara?….”.

Mas todos podem recorrer ao click. As pessoas de bem não precisam mais carregar valores. Tudo pode ser comprado, vendido ou transferido através de teclas. Isso já está sendo feito com regularidade. O dinheiro, da maneira como hoje conhecemos, está sendo aposentado aos poucos, virou algo dispensável. A maquininha chega em todos os lugares. Do engraxate à prostituta, cinemas, barraca da praia, feirinha da esquina, todos estão facilitando a vida do consumidor. O traficante, por motivos óbvios, talvez seja o único “profissional” que, dizem, ainda não está oferecendo essa facilidade…

Existe outro tipo de click: aquele que nos diz quem somos… Verdade! Através do click, podemos identificar os integrantes da Polícia Federal, principalmente em qual das novas categorias estamos inseridos. Um jornal noticiou, com detalhes, a existência delas. Diz a notícia que o “Planalto” considera que a Abin e boa parte da PF são constituídas de três categorias, “descritas por um assessor do presidente” como: os “acomodados”, os “mercadores” e os “cachorros loucos”. Ah! Para alívio geral, o assessor informou que existe também uma quarta: a dos “bons profissionais”.

O tal assessor fez uma “análise” das “categorias”. Vou transcrevê-la para que ninguém tenha dúvida na hora do click numa eventual pesquisa. Explicou ele que os “acomodados” estão cada vez mais acomodados e ganhando bem; os “mercadores” traficam informações sigilosas e ganham dinheiro; e os “cachorros loucos” funcionam como justiceiros, que admitem fazer o mal e praticar ilegalidades em nome da idéia de que só eles estão fazendo o bem para a sociedade. A última categoria é a constituída pelos tais bons profissionais, formada, segundo o “assessor”, por gente que estaria querendo mudanças. Felizmente existe esta opção, será uma oportunidade para sabermos se ela tem representatividade suficiente para exigir transformações.

Finalmente, um último comentário. Como até hoje não conseguimos ver implantado um plano de carreira na Polícia Federal, informo que isso não é problema na Agência Brasileira de Informações. A reportagem revela que a profissionalização da Abin começou a ser feita com a elevação dos salários e com a sanção da lei que definiu o plano de carreira do órgão. Talvez, um dia, a Polícia Federal consiga também. Não sei quando isso será realidade. Certamente não vai demorar a realização de uma pesquisa perguntando se os brasileiros concordam com um plano de carreira para a Polícia Federal do país. Será uma pergunta preocupante. Essa dúvida não precisaria existir…

Valacir @ 8:08 am
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Quando prendem policiais - Parte II

Postado Quinta-feira 18 Setembro 2008

Falei, certa vez, que vivi mais da metade da minha existência na Polícia Federal. Durante esse tempo vi de tudo, das coisas mais sublimes às mais sórdidas, algumas só valeriam a pena serem divulgadas postumamente… Lembrei, na época, um bandido famoso - Lúcio Flávio. Ele falou uma frase que marcou: “polícia é polícia, bandido é bandido”. A frase foi forte pelo que significou nas entrelinhas. Estou lembrando dessas coisas porque tivemos, novamente, o desprazer de ver um policial federal sendo preso. Desta vez, tratou-se de um integrante da cúpula da Polícia Federal. É triste vermos gente que precisa dar exemplo ser segregada por obstáculos que deveriam ser usados somente para separar bandidos de policiais…

A prisão foi revogada com celeridade pelo Tribunal Regional Federal. Embora, no entender da PF, a prisão fosse desnecessária, a Justiça e o Ministério Público não entenderam assim, pois consideraram que, em razão do cargo ocupado pelo mesmo, poderia haver interferência ou prejuízo para a coleta de provas. No sítio da Federação dos Policiais Federais, li vários comentários, com críticas e palavras de apoio ao delegado. São manifestações válidas e respeitáveis, mas prefiro ver esse tipo de coisa sem entrar no mérito - prefiro que isso continue sendo feito pela Justiça. Entendo que o foco da atividade policial é outro. Certamente, vou morrer acreditando que a missão da polícia é investigar e prender, mesmo que essa investigação chegue dentro do nosso quintal.

Não é difícil perceber que a Polícia Federal mudou. O movimento sindical teve uma importante participação nessa mudança quando pediu concursos públicos com exigência de nível superior para ingresso, e uma Academia de Polícia com treinamento e métodos modernos. As operações policiais estão sendo feitas sob o olhar atento do povo e a lei está chegando em quem parecia intocável. Hoje, todos percebem que ninguém é inalcançável. Com orgulho, vemos que esse mesmo povo tem na sua polícia uma das instituições mais confiáveis. Mas, infelizmente, o nosso país está infestado pela corrupção. Pior: várias operações revelaram que não estamos imunes. Não raras vezes, gente que deveria dar exemplo esquece disso. Isso faz parte da condição humana, mas que machuca, machuca, chega até a doer…

Numa das primeiras operações com grande repercussão, vários policiais federais foram presos. A maioria deles foi detida no interior do Estado. Lembro que chegaram alquebrados, de cabeça baixa. Na condição de sindicalistas, cobramos um tratamento humano, o que acabou acontecendo, pois a revolta era grande pela traição atribuída aos mesmos quando se aliaram a marginais. Lembro que um deles, um velho companheiro da ANP, disse: “errei, não sei o que vai ser de mim”… Aquele fato foi marcante, me fez perceber com clareza algo fundamental: a missão do Sindicato não é julgar… Sindicalista não pode se arvorar da condição de juiz. Continuo achando que, se alguém cometer um crime, deve ser preso e condenado; mas se merecer ficar preso por dez anos, não pode ficar mais do que isso. A mensalidade paga precisa retornar em forma de um tratamento justo, nem mais, nem menos.

Uma das rádios mais ouvidas do Rio Grande do Sul, depois que foram presos policiais federais e civis, meses atrás, realizou um debate no qual foi perguntado aos ouvintes se a corrupção atingia somente alguns, ou a polícia como um todo. No final do programa, o resultado da enquete: 55% dos ouvintes achavam que ela atingia alguns, já 45%, disseram que a mesma atingia a polícia como um todo. Entre os debatedores, estava um funcionário dito de “nível superior” que, externando idéias com a profundidade de um pires, fez questão de dizer que o policial federal preso era de “nível médio”, o que, segundo ele, era “a demonstração de que escolaridade elevada afasta a corrupção”. Foi preciso um jornalista lembrá-lo da existência de delegados presos e condenados em outras operações.

O mesmo foi lembrado pelo Sindicato de que todos os policiais federais possuem nível superior e que esse tipo de observação não leva a nada nem engrandece ninguém. Está provado que não importa o nível intelectual, importa e causa espécie, sim, o tipo de conduta do servidor, que deve ser ilibada sempre. Voltando ao começo, lembro que talvez esteja na hora de estabelecermos uma uniformidade de procedimentos para tratarmos casos como esses que, fatalmente, acabam acontecendo. Precisamos chegar num consenso. A emoção e corporativismos precisam ficar afastados, por mais apertado que fique o coração…

Valacir @ 1:11 pm
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As críticas do presidente precisam ser estendidas a outros setores…

Postado Sexta-feira 12 Setembro 2008

Sou um leitor voraz de jornais. Minha curiosidade é grande pela manchete do dia. Algumas chamaram minha atenção na semana que passou, a primeira dizia: “STF libera 9 integrantes da ‘tropa de choque’ do PCC”. Dizia a notícia que a 1ª Turma do STF, por unanimidade e com aval do MPF, concedeu habeas-corpus para nove integrantes do bando. Foi explicado que os mesmos foram soltos “por estarem presos há quatro anos sem que nem mesmo a instrução do processo tivesse sido concluída”. Foi dito também que a prisão da quadrilha ocorreu em 1º de julho de 2004. Que o bando foi detido depois que escutas telefônicas detectaram que o PCC e o CV se preparavam para tomar de assalto a Penitenciária 2 de Franco da Rocha.

A segunda tratava de um assunto bem mais brando: “Faltou a bronca do Lula”, dizia. Ela se referia ao empate da seleção brasileira com o fraco time da Bolívia. No jogo anterior, o presidente causou uma polêmica. Diferente dos outros, ele emite opinião sobre tudo. Desta vez, resolveu dizer que os jogadores brasileiros não têm raça, que deveriam espelhar-se nos argentinos. Alguns atletas não gostaram das críticas; um deles chegou a dizer que o presidente deveria mudar-se para a Argentina… Muitos brasileiros apoiaram o pronunciamento, enquanto outros acharam que ele não deveria emitir opinião sobre tal tipo de assunto.

Confesso que fiquei em dúvida. Esse tipo de declaração tem um peso muito grande, acho difícil separar a opinião do mandatário do torcedor. Depois de refletir sobre o ocorrido, estou convencido de que o presidente pode manifestar-se sobre o assunto que quiser, embora não lembre que ele, como adepto do Corinthians, tenha se manifestado quando seu clube foi parar na segunda divisão. Acho que, desta vez, ele ficou preocupado com a (remota) possibilidade do país não obter classificação para a próxima Copa do Mundo, algo impensável no Brasil.

Como todos puderam ver, depois do pronunciamento do presidente, o time jogou bem, com espírito coletivo e fazendo gols com naturalidade na casa do adversário. Os jogadores, contrariamente à crítica feita, mostraram uma raça que andava ausente, e o talento voltou como por encanto. Infelizmente tudo desapareceu contra a Bolívia, mas, desta vez, o presidente resolveu não comentar. A torcida brasileira e, principalmente a imprensa, aproveitou para dizer com todas as letras: “Faltou a bronca do Lula”. Não sei se faltou a tal bronca, mas às vezes parece que existem setores que só funcionam quando cobrados publicamente.

Aproveitando a deixa, quero fazer um pedido ao presidente. Seus comentários poderiam ser estendidos a outros setores. Gostaria que ele “puxasse a orelha” de mais gente, pois é evidente que existem outros “jogando sem raça”. Do alto do seu cargo e com a grande popularidade que desfruta, certamente poderia comentar que precisamos achar um jeito de manter bandidos nas prisões. A soltura desses integrantes da tropa de choque do PCC é inaceitável. O STF cumpriu o que preconiza o nosso ordenamento jurídico, mas algo precisa ser mudado. Gente presa há quatro anos sem que o processo seja instruído é demais. Providências precisam ser tomadas, nosso povo está sendo brutalizado por esses facínoras e, quando eles são presos, acabam sendo libertados pelos mais diversos motivos. O presidente precisa comentar isso também, na certa começarão a procurar uma solução.

Quanto aos grampos telefônicos, o presidente poderia dizer que eles são necessários. Que os mesmos são uma ferramenta indispensável para ajudar a polícia a acabar com a corrupção. Que é preciso, apenas, criar mecanismos de controles eficientes. Que eles não podem ser feitos por gente sem competência legal como parece que anda acontecendo. Que as polícias, bem treinadas e obedecendo a uma lei específica, desbaratarão as quadrilhas e identificarão os corruptos. Que os responsáveis pelas interceptações telefônicas devem cumprir a Lei, principalmente não fazendo alianças com “arapongas”. Tenho certeza de que, com esses conselhos, muitos “gols” serão feitos em todas as “partidas”…

Finalmente alerto o presidente sobre o fato de que muitos não vão gostar dos comentários, mas, ao contrário dos mimados jogadores, com certeza eles não mandarão o presidente mudar-se do país. Eles passarão a cumprir suas tarefas com a “raça” que o país espera deles. Está passando da hora disso acontecer.

Valacir @ 12:56 pm
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A escuta telefônica e a tecnologia da boca fechada…

Postado Sexta-feira 5 Setembro 2008

Esta estória da escuta telefônica me faz lembrar uma velha anedota. Dizem que certa vez um sujeito roubou um porco. Colocou o animal num saco, jogou em cima das costas e tratou de afastar-se do local do crime. Pensou que ninguém tinha visto. Ledo engano, uns meninos tinham visto tudo e começaram a gritar: “Olha o cara roubando o porco, olha o cara roubando o porco!”. Quando se deu conta, tinha uma multidão correndo atrás dele. Foi alcançado. A turba gritava: “você roubou o porco, roubou o porco”. Desesperado, olhou para toda aquela gente e respondeu: “Que porco? Que porco?”. A turba enfurecida respondeu: “esse que está nas tuas costas, pilantra”. Para surpresa de todos, na maior cara de pau, ele repetiu, com “indignação”: “Que porco? Que porco? Tirem esse bicho daqui…”.

Quando escuto as explicações dadas para os grampos ilegais, não consigo deixar de lembrar o cara do porco. Só faltou dizerem, também: “Que escuta? Que escuta? Tirem essa coisa daqui! Quem botou essa maleta na nossa mão?”. É claro que ninguém desconhece que esses aparelhos de interceptação telefônica não podem ser adquiridos sem critério e, principalmente, por quem a lei não autoriza. Mas até escândalos, como em tudo na vida, apresentam um lado bom e um ruim. O lado bom desse, é que finalmente veio à tona o que muita gente já sabia: a absurda proliferação de grampos telefônicos. Com o sucesso alcançado pela PF, muitos egos (inflados) acharam que o caminho era esse e saíram à luta… Mas afinal, quem pode usar a interceptação telefônica? Precisa ficar claro, de uma vez por todas, que ela não pode ser efetuada sem autorização judicial e por quem não tem atribuição para tal.

A interceptação surgiu na polícia como algo inovador, com o poder de mudar o conceito de uma investigação que se baseava na velha campana e na utilização de informantes. Certos trabalhos demoravam meses para ter algum resultado. Com o advento do tal grampo, tudo mudou. Hoje, basta jogar um grampo no telefone de um suspeito e o cara fica nu. Se for o caso, tudo vem à tona - crimes, armações, pecados (veniais e mortais), traições, propinas, confissões, declarações, acusações, tudo “cria vida” com riqueza de detalhes. O livro fica aberto, o investigador só tem o trabalho de ler, de separar o que interessa do supérfluo… Amigos, inimigos, desavisados, amores, desamores; todos eles, sem saber, assumiram o lugar dos antigos informantes… A interceptação telefônica virou sucesso, mas dois detalhes importantes e decisivos foram esquecidos: a proliferação desenfreada e a inexistência de controles rígidos sobre a difusão da “matéria-prima”, principalmente do “supérfluo”…

É claro que a escuta é importante e as polícias não podem abrir mão dessa moderna ferramenta de investigação. Mas concordo quando dizem que o país não pode ficar à mercê de uma arapongagem generalizada, especialmente se ela for fruto de licenças apressadas ou, pior ainda, se ela for clandestina e ilegal. Mas precisa ficar claro, bem claro, que a escuta telefônica é um meio, jamais um fim. Infelizmente, isso é algo difícil de ser entendido por alguns. A entrada da polícia na era da informatização foi algo inevitável, pois se isso não acontecesse ela ficaria parada no tempo, sem condições de conter o avanço da criminalidade num tempo caracterizado pela comunicação instantânea. A interceptação telefônica, no entanto, não pode ser tratada como mais uma técnica de investigação. Como instrumento poderoso que é, precisa de mecanismos de controles rígidos, que impeçam seu uso indiscriminado. Usada do jeito que parece que está sendo, vira uma bomba atômica que acaba explodindo no colo de personagens que não possuem o necessário preparo para serem detentores de algo que pode destruir a vida das pessoas.

Uma declaração feita pelo ministro do Gabinete da Segurança Institucional, na CPI dos Grampos da Câmara dos Deputados, pode ser encarada como símbolo do descontrole a que o país chegou na questão das escutas telefônicas. Disse ele, para quem quis ouvir, que “a única tecnologia antigrampo efetivamente eficaz é não abrir a boca”. No alto do seu cargo de general, ele deve saber do que está falando. De minha parte, estou preocupado. Acho que os cidadãos têm o direito à privacidade, o direito de falar com amigos e entes queridos sem temor de gravações. Por acreditar que a estatística é a arte de espremer os números até eles confessarem, reafirmo minha preocupação quando leio que no ano passado foram feitas mais de trezentas mil interceptações com ordem judicial.

Finalmente, comento o afastamento do diretor da Abin e ex Diretor-
Geral da PF logo após o escândalo dos grampos. Depois que ele foi afastado, seus chefes se referem a ele como grande profissional, como uma pessoa acima de qualquer suspeita. O ministro da Justiça chegou a dizer que o ex-diretor “é um homem sério e que pelo que conhece de sua história, de seu currículo, ele não determinaria qualquer ação ilegal”. Não tenho porque discordar, mas, afinal, por que razão o diretor da Abin foi afastado? Será que pretendem transformá-lo num Dr. Jekill, aquele personagem que descobriu uma poção que lhe permitia duplicar-se. Estimado por todos, o Dr.Jekill transformava-se no horrível Sr. Hyde que cometia atos contrários à lei. Vou aguardar, tenho curiosidade de saber quem é essa pessoa que esteve à frente da PF por tanto tempo.

Valacir @ 11:08 am
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O voto obrigatório é a negação da democracia

Postado Sábado 30 Agosto 2008

Em tempo de eleições, repito um antigo ritual: procuro imediatamente um programa alternativo para substituir a propaganda eleitoral. Por mais que tente, não consigo assistir ao tal horário político. Quando tentei, vi algo hilariante, triste, patético. É difícil definir o desfile de excentricidades. Incrivelmente, alguns candidatos não sabem as atribuições do cargo que postulam. Fazem todo tipo de promessas, algumas poderiam ser reproduzidas em programas de humor, tal o tamanho dos absurdos. Assisti a candidato a vereador prometendo solucionar problemas nacionais, enquanto outro prometia acabar com a interminável crise na segurança pública… Se essa gente for eleita, com certeza a vida vai melhorar - a deles, logicamente…

Numa eleição passada, um candidato a prefeito prometeu construir um “trem bala” ligando Porto Alegre à praia e, pasmem: “para os trabalhadores ocuparem as casas dos ricos, que ficam vazias a maior parte do tempo…”. Mas a cada ano a coisa piora, eles estão melhorando pra pior… Quem não lembra aquele candidato que em trinta segundos concluía o “discurso” repetindo seu nome. Sua proposta mais conhecida foi defender a construção da bomba atômica… Mas o que mais me impressionou foi que, com esse tipo de “campanha”, o cara conquistou 4,6 milhões de votos…

Em quem você votou para vereador na última eleição? Essa pergunta foi feita pelo IBOPE numa grande cidade. A pesquisa revelou que 61% dos eleitores esqueceu em quem votou. O número sobe para 65% quando incluem na soma aqueles 4% que garantem recordar, mas não sabem dizer o nome exato do candidato. Um estudioso do assunto comentou que o fato dos eleitores esquecerem demonstra que as campanhas têm pouco impacto em suas vidas. Explicou que os candidatos se diferenciam por pouca coisa, como se tem nariz de palhaço ou não, se cria um nome esquisito ou se faz uma promessa ridícula, por exemplo. Ele disse que esse marketing ajuda a fixar na cabeça do eleitor o nome do candidato, mas em termos de propostas há um vazio completo. Completou dizendo que a maioria dos eleitores não lembra porque sabe que aquele discurso não vai fazer diferença nenhuma…

Estou fazendo essas considerações para chegar onde realmente pretendo - no discutível voto obrigatório. Afinal, que tipo de democracia é essa que obriga cidadãos a votar? Que tipo de democracia é essa que proporciona a criação de uma “reserva de mercado” com eleitores sendo forçados a formar um colégio eleitoral sob pena de punição? Sou um dos que acha que o voto obrigatório é a negação da democracia, pois a maioria dos países desenvolvidos e de tradição democrática adota o voto facultativo. Certamente, eles sabem que, onde o voto é obrigatório, foi onde mais aconteceu o desrespeito às Constituições, onde mais elas foram rasgadas…

Essa conversa de que o voto é um direito está ultrapassada, mofada. Está na cara que um consenso sobre uma alteração pode ser obtido, pois é evidente que titulares de “direitos” não devem ser coagidos a exercê-los. Ninguém explica por que razão quando os direitos envolvem saúde e segurança, por exemplo, os cidadãos precisam lutar para ter acesso a eles, com gente morrendo sem atendimento, enquanto outros são agredidos por todo tipo de violência. É evidente que ter um título de eleitor é algo importante, mas isso não quer dizer que o voto precisa ser obrigatório. Punir quem não quer exercer um direito é algo estranho, coagir eleitores, mais ainda. Voto obrigatório não combina com democracia.

Essa lei impositiva causa outro fenômeno quando cidadãos se dirigem às urnas: sem vontade e contrariados, acabam votando em nomes conhecidos, mesmo que ruins, com receio de votar em candidatos que não conhecem. Muitos esquecem que a obrigação é comparecer, nada mais do que isso. Votar em alguém é outra estória, pois, até como uma resposta à coerção sofrida, podem anular o voto ou votar em branco. Um dia os fazedores de leis entenderão que votar deveria ser encarado como um direito subjetivo antes de um dever cívico e, entenderão, também, que esse direito deveria contemplar as duas possibilidades: de assinar a folha de votação ou não.

Concluindo reafirmo minha fé na democracia e no voto facultativo, livre, não obrigatório, na qual os partidos políticos convençam os eleitores a votar. Para que isso aconteça, as campanhas políticas precisam ser reformuladas. Práticas reprováveis precisam ser abandonadas, como as que desconsideram os eleitores quando os partidos apresentam propostas inexeqüíveis, fora da realidade. Tenho esperança numa reforma política. Tenho esperança de não ser mais obrigado a comparecer em locais de votação sem entusiasmo. Tenho esperança de não mais ouvir gente como Rola Bosta, Gordo Salada, Vovô do Rock, Zé Pereba, Burrego, Nó Cego e outros fazendo promessas, enchendo nossa paciência e nos fazendo perder um tempo que poderia ser aproveitado com coisas mais úteis. Não preciso de direito ao voto, quero, sim, o direito de decidir se quero votar ou não - democracia já!

Valacir @ 10:04 am
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Algemas: a revolta dos ricos e o manual de conduta

Postado Sexta-feira 22 Agosto 2008

Quando observo a celeuma sobre o uso de algemas, não consigo deixar de comparar essa discussão com os dramalhões exibidos pelas emissoras de televisão. As novelas, diferentes dos noticiários, são escritas por especialistas que usam seus talentos para prender a atenção do espectador. Antes da novela, porém, é oferecida outra atração. Noticiários mostram, com hora marcada, a vida como ela é, através de um desfile diário de dramas e mazelas. Os personagens não são astros televisivos, mas chamam atenção de maneira inversa: a maldade e a falta de escrúpulos impressiona. O roteiro segue uma lógica imutável: surpresa, comoção e revelações estarrecedoras. Depois, enquanto a população discute o desempenho dos “artistas”, os institutos de pesquisa decidem se vale a pena continuar com a “atração” - tá na cara que só permanecerá na telinha se estiver dando lucro…

Algo chama atenção: chacinas, “arremesso de crianças”, assalto ao erário público, prisão de figurões, balas perdidas, seqüestros e motoristas bêbados abandonam as manchetes com a mesma velocidade que surgem - de repente. Não faz muito todos comentavam: um horror, inaceitável, um absurdo - mesmo assim perdem o interesse, “enchem o saco”, deixam de ser notícia… Quando esses assuntos reaparecem, dão a impressão de serem coisas requentadas, iguais àqueles filmes que fazem sucesso e depois são exibidos nas madrugadas. Como notícia antiga não tem graça, a audiência espera ansiosa “o jornal”, na expectativa de assistir a um programa “movimentado”, recheado de escândalos, dignos de concorrer com os dramalhões exibidos pelas novelas.

Agora o assunto da moda é o uso de algemas. As opiniões estão divididas. Entre os menos favorecidos, há quase uma unanimidade em favor do uso das mesmas com os critérios já consagrados, quando a “democracia” imperava, isto é, algema para todos, sem distinção de classe… Já entre os ricos e influentes há uma grande revolta. Eles nunca imaginaram que um dia esse distante e estranho objeto (para eles) seria usado em pulsos acostumados a pulseiras mais nobres…. Há por parte dessa gente uma revolta contra as operações policiais: - Como podem usar algemas para conduzir pessoas como eles? A discussão é grande, todos opinam, ou melhor, quase todos, menos os policiais que têm, como qualquer polícia, a algema como matéria-prima de seu ofício.

Os policiais gostariam de dar sua colaboração. Recebo mensagens de muitos amigos. De vários lugares do país, colegas mandam sugestões na ânsia de ver resolvido esse problema inquietante para a classe policial, pois algemas e polícias não podem viver distantes, são como irmãs siamesas em qualquer parte do mundo. No nosso país, cirurgiões que não entendem do assunto estão querendo separá-las. É algo perigoso essa separação, ela pode virar tragédia caso uma delas desapareça.

Aproveitando as sugestões, estou tentando montar um Manual de Conduta paralelo. São muitas as sugestões, aproveitei algumas: será considerado falta grave o uso de algemas em presos ricos, engravatados, políticos, banqueiros e advogados, por exemplo. Será permitida, porém, a velha “chave de braço”, mas não poderá ser usada a gravata no pescoço de maneira simultânea com a chave. Também retornará a velha forma que os pais e professores conduziam os infratores - pela orelha. OBS: apenas um policial, em somente umas das orelhas. Comentam alguns que pais estão conduzindo filhos fujões pela coleira e guias, nas praias e passeios. Se é permitido em crianças, poderiam permitir para adultos, também. Mas atenção: aos pobres em geral, algemas em dobro. Serão utilizadas, por medida de economia, aquelas que sobram dos ricos.

Há uma sugestão que deixei para falar por último. Diz alguém que a algema só será utilizada quando o preso der autorização… Logicamente, será feito um “Termo de Consentimento”. O termo é simples: aos dias tais, ao realizar prisão em flagrante de fulano de tal, tendo na oportunidade etc.etc., por vontade própria dado consentimento para que fossem usadas algemas para sua própria segurança e integridade dos policiais, etc.etc. Lido e achado conforme, vai devidamente assinado, inclusive pelas testemunhas. Assinam: chefe da equipe, algemado, advogado e testemunhas… Como todos podem ver, idéias é que não faltam. Os policiais precisam de algemas para trabalhar, e os ricos precisam de providências para aplacar sua revolta. O confronto está estabelecido!

PS: Essa tendência de tudo virar rotina no nosso país me lembra a fictícia estória da mudança de residência do papa. Alguém falou, com propriedade, que, diferente de Roma, se o papa viesse morar no Brasil, em pouco tempo ele passaria na rua sem despertar a menor atenção. Seria cumprimentado com aquela “alegria” própria do brasileiro: “Como vai essa força, Santidade?” - o papa seria mais um. Sorte dele que não há a menor possibilidade disso acontecer. O líder da Igreja Católica continuará a ser olhado com reverência e com o respeito que merece sua condição de “Santo Padre”.

Valacir @ 8:04 pm
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Um apóstolo de Jesus inspira o novo dirigente da Senasp…

Postado Sexta-feira 15 Agosto 2008

Depois de passar três meses como interino, assumiu a chefia da Secretaria Nacional de Segurança Pública – SENASP, o senhor Ricardo Brisolla Balestreri. O novo Secretário ostenta um fulgurante currículo: educador com obras publicadas, licenciado em História, especialista em Psicopedagogia Clínica e em Terapia de Família. Integra os Comitês de Educação para Direitos Humanos e de Combate e Prevenção à Tortura no Brasil. É consultor educacional e conferencista convidado por ONGs internacionais em diversos países. Por sua atuação como educador e parceiro, foi agraciado com medalhas por diversas polícias. Por motivos óbvios, informo que essa “ficha” pode ser acessada na Internet juntamente com alguns pronunciamentos feitos pelo mesmo…

Em suas manifestações, o educador diz que sabe tudo sobre polícia… Ressalta que “pode sentar-se e discutir segurança pública com qualquer especialista policial” e que “tem conhecimento e experiência para mudar a visão tático-operacional que sempre reinou na área de segurança”. Confesso, fiquei preocupado, pois acredito naquela afirmação de que é flagrante a supremacia da excelência prática sobre a esterilidade teórica… Talvez, por isso, não sei se ele vai consertar o que critica, mas os problemas que apontou e as soluções que prega precisam ser discutidos por todos os envolvidos. Ele quer a instalação de microcâmeras nos uniformes dos policiais para “detectar abusos e violações em suas ações” e “o uso mais intenso de armas não-letais e menos truculência nas ações”. Sugere ainda um programa de tratamento psicológico para os profissionais de polícia. Diz que “a formação do policial brasileiro guarda resquícios da ditadura militar” e que muitos “apresentam dificuldades de assimilar noções de direitos humanos e valores democráticos”.

Não há dúvida de que o Secretário tem direito de externar suas idéias sobre a atividade policial até para que todos saibam o que ele pensa sobre o tema. Talvez o senhor Balestreri ache desnecessário, mas quero ajudá-lo. Em Porto Alegre, o jornal de maior circulação do Estado publicou um texto que deve interessar a ele. Uma reportagem revela que, após assistir a aulas teóricas e disparar menos de duas dezenas de tiros, a maior parte dos 563 alunos do Curso Básico de Formação Policial Militar, lotados em Porto Alegre e algumas cidades do interior, recebeu coturno, fardamento, revólver e a seguinte orientação: - Caminhem de um lado para o outro, observem o que acontece e abordem quem estiver em atitude suspeita. Parece algo óbvio, mas não é.

Um dos recrutas foi entrevistado. O diálogo estabelecido com o jornalista foi revelador e didático para quem pretende mudar as polícias brasileiras: – Não é perigoso fazer policiamento sem colete? – Imagina! A gente não conhece a cidade, não sabe atirar direito, não teve aula de abordagem e sai sem colete. Comento com o meu colega: qualquer coisa a gente corre! – Qual o principal temor de trabalhar nessas circunstâncias? – Tenho medo de morrer, é claro, mas também tenho medo de matar um inocente. – Na hipótese de prender alguém, você sabe o que fazer? – A orientação foi de prender e chamar o sargento. – Vocês possuem celular ou rádio? – Não. – Como chamam o sargento? – Boa pergunta! Não prendemos ninguém ainda, mas se prender, vou ficar esperando o oficial. O senhor não poderia levar o preso à delegacia? – Nem sei onde tem delegacia aqui por perto. – Os salários estão sendo pagos? – Não. Tenho filhos pequenos, que estão com a mulher, no Interior, e não sei o que fazer. Estou pensando em desistir. A reportagem foi bem mais extensa, mas o relatado dá uma idéia dos tempos que estamos vivendo… Com certeza alguns vão dizer que é um problema localizado - é a resposta padrão. De minha parte, só posso dizer que o fato aconteceu na cidade em que eu moro…

O novo diretor da Senasp costuma contar uma estória acontecida durante a ditadura militar. Diz que foi interrogado por um delegado de polícia querendo saber o sobrenome e o endereço de um certo “Tiago”, que seria autor de um texto considerado inaceitável na época. – “É sério delegado, esse homem morreu há muito tempo. Ele vivia em Jerusalém, no século primeiro. É Tiago, Apóstolo de Jesus, e o texto reproduzido no jornal é a ‘Epístola de Tiago’, extraída do Novo Testamento”. – “Tá me achando com cara de besta, sujeito? Nós somos polícia científica. É melhor ir dando logo o serviço”. É uma boa estória, o diretor da Senasp deixa nua a disparidade dos intelectos envolvidos numa época triste da nossa história. Tomara que o Apóstolo Tiago o inspire na implantação de mudanças que melhorem as polícias. Diferente do passado, hoje ele está num lugar estratégico para implantá-las. Existe um ministro da Justiça que acredita nele, que comunga com suas idéias e com recursos para investir na atividade policial - li que o Fundo Nacional de Segurança Pública está com menos de 8% de execução…

Finalizando, informo ao Secretário que sou um contribuinte que torce por ele. Com a vivência e a competência que tem, certamente não deve estar de acordo com o sistema perverso vigente no país, no qual os que julgam, os que acusam e os que defendem ganham – merecidamente - bons salários e dispõem de todas as condições para exercerem seus ofícios, enquanto os que estão na rua, com a difícil e perigosa missão de investigar e prender, são tratados como párias. O Secretário chega a dizer num de seus pronunciamentos que os policiais militares passam pelas pessoas nas ruas, mas não convivem com a sociedade; que não passam de vultos circulando em viaturas… Ele tem razão, a maioria deles não convive, mesmo, com a sociedade. Eles moram em moradias humildes, distantes, esmagados por salários miseráveis, alguns escondendo suas fardas para não serem mortos.

Volto à reportagem do jornal… O Secretário, um intelectual festejado, educador e militante de organizações que defendem os direitos humanos, certamente fará o que estiver ao seu alcance para que não sejam jogados na rua policiais despreparados, com medo de matar inocentes - o que fatalmente acaba acontecendo. Gente que, como é revelado no jornal, está com vontade de desistir por não conseguir sustentar suas famílias. Essas e outras mazelas precisam ser mudadas. Um país como uma das maiores economias do mundo, que investiu milhões de dólares para organizar um Pan-americano e que pretende investir ainda mais para sediar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada, com certeza encontrará uma maneira de investir, também, na segurança do seu povo.

Valacir @ 5:45 pm
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Os classificados que ninguém conhece: uma lista diferente

Postado Sábado 9 Agosto 2008

Dizem que não existe nada mais eterno do que um hábito. Eles grudam na gente. Um deles, que me acompanha desde a primeira habilitação, é entrar no carro e ligar o rádio. Se não obedeço a essa ordem emanada do meu cérebro, o dia começa pesado. Mas ligar o rádio não é o bastante, fico mudando de estação até encontrar um assunto que me interesse. Quando eles estão enjoados ou repetitivos, me socorro da música. O som exerce em mim um imenso fascínio. Ele me distrai, me dá paz e fortalece minhas convicções para enfrentar as batalhas do dia-a-dia. Talvez, por isso, considero o rádio indispensável. Gosto de automóveis, me encantam as novas tecnologias, mas acho que elas ficam incompletas se não contemplarem o bom e velho rádio.

Num dia desses, estava quase apelando para a música quando acessei uma emissora que entrevistava uma jornalista. Falante e comunicativa, a mesma apresentava um livro de sua autoria com o título “Os endereços curiosos de Porto Alegre”. O assunto logo despertou minha atenção - ouvi o programa inteiro. É fácil explicar por que fiquei tão interessado: moro na cidade há muito e achava difícil existir nela um endereço (interessante) que eu ainda não tivesse ouvido falar ou lido a respeito. A entrevista prosseguia cada vez mais reveladora, a cada novo endereço aumentava minha surpresa, pois jamais imaginei a existência de certas atividades, principalmente tão acessíveis e próximas de mim.

A idéia não é nova. A própria autora revela que existe esse tipo de publicação com o foco em outras cidades do país e do exterior. Metrópoles como Lisboa, Buenos Aires, Amsterdã, Londres, Barcelona, Nova York, Paris e Roma já foram usadas como tema. No Brasil, capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador também tiveram seus endereços curiosos revelados. No mesmo dia, procurei uma livraria e adquiri a obra. No livro, a autora conta que, para encontrar serviços e produtos inusitados, começou pela memória, mergulhou na Internet e foi atrás dos mais variados veículos de comunicação. Apelou para todo tipo de placa de anúncios e até para a curiosidade alheia…

Quem quiser saber mais, precisa ler “Os endereços curiosos de Porto Alegre”, as dicas são dadas juntamente com nomes e telefones. O trabalho é interessante e feito com bastante competência. Divido com vocês algumas curiosidades:

Aluguel
Aparelho para tirar leite materno - são alugados aparelhos elétricos para esvaziar as mamas para quem não quer ou não pode fazê-lo naturalmente. Diz a proprietária que “qualquer retirada estimula a produção”.
Máquinas de café para residências - é possível locar máquinas de café expresso iguais às vendidas nas lojas. O serviço inclui o fornecimento de grãos selecionados, leite e tudo o que é preciso para fazer café e outras bebidas como cappuccino ou chocolate quente.

Bichos
Crematório para animais - O dono recebe as cinzas do seu bicho de estimação em casa, dentro de uma urna de papel reciclado, em três formatos a escolher: pentágono, triângulo ou quadrado. O atendimento não inclui velório, mas nada impede que o próprio cliente providencie a vigília…
Salão de festas para cachorros - o pacote inclui, entre outras coisas, convite, mesa decorada, petiscos, chapéus, balões e bolo de carne com velinhas. Se o homenageado ficar cansado é recomendado uma “sessão de ofurô” por 15 minutos no dia seguinte…

Comidas e bebidas
Cheeseburguer gigante - é do tamanho de uma calota… Sanduíche com 27 centímetros de diâmetro. Desde a fundação da lancheria 25 pessoas já conseguiram comê-lo sem companhia. Não é cobrado o bis de quem consegue repetir o prato sozinho…..
Loja especializada em gordura transgênica - o proprietário diz que vende o “demonho”. Vende gorduras específicas para fazer sorvete, bolos, recheios, frituras, balas e outras “delícias”. Informa que tem clientes novos toda semana…

Consertos reformas e restaurações
Tem de tudo - abertura de segredo de malas, ajuste de jeans em domicílio, consertos de brinquedos antigos, pronto-socorro de óculos, consertos de tênis, montadora de guarda-chuvas transformação de roupas e muito mais.

Cursos
Os cursos são os mais variados - maquiagem em mortos, dança para noivos, culinária tailandesa, fotografia para idosos, curso de direção para pessoas nervosas, linguagem dos sinais, mecânica para mulheres e por aí afora.

Existem muitas outras curiosidades. Fiquei entusiasmado depois que li o livro. Estou decidido a inaugurar outras atividades na cidade, pois acho que existe mercado. De imediato, lembrei que poderia abrir uma empresa de reciclagem de algemas… Poderia criar uma escola para ensinar como evitar olho grande ou como cometer todo tipo de falcatrua sem permanecer preso… Poderia abrir, também, um espaço privado onde os bêbados continuariam a dirigir, logicamente, com limitador de velocidade e túnel com paredes “emborrachadas”… As idéias são muitas, não vou falar agora para não ser copiado…

Finalmente, informo que estou aceitando sócios. Se alguém tiver outras idéias (brilhantes) podem mandar. É a hora das “pessoas de visão” participarem de um negócio lucrativo e sem concorrência…

Valacir @ 3:05 pm
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