Hoje não vou assinar nenhum texto. Um assunto mexeu comigo, pensei bastante como abordá-lo. Abandonei a ideia quando li um texto escrito por Bob Fernandes no portal Terra – ele disse tudo que eu queria dizer. Não tive talento, faltou inspiração, mas está aí, alguns concordarão, outros certamente, não – faz parte da Democracia.

Porque defender a privacidade de Carolina Dieckmann

Carolina Dieckmann teve fotos privadas novamente expostas. Na noite desta terça-feira, 15, hackers invadiram o site da Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) e postaram fotos da atriz nua. A Cetesb tirou o site do ar, como noticiou o Portal Terra.

Espantoso como tem gente, a essa altura do século XXI, que acredita, e prega, serem excludentes o combate à corrupção e a defesa da garantia plena de direitos individuais como, por exemplo, o direito à privacidade.

Como se um anulasse o outro, como se um, forçosamente, impedisse a luta pelo outro. Como se um fosse importante e o outro não. Como se uma coisa significasse “a ética” e a outra fosse frescura, puro marketing de uma “famosinha”. Como se a invasão de privacidade fosse “neutra” do ponto de vista ético; ou “moral”, uma vez que a raiz de tais discursos é essa. Basta ver a chuva de comentários nos sites, e de “campanhas” nas redes sociais.

Como se ambos – corrupção e invasão de privacidade – não fossem crimes, não fossem parte do mesmo pacote de desrespeito, incivilidade e escrotidão. Como se o fato da corrupção produzir estragos muito mais visíveis e muito mais imediatos tornasse a invasão de privacidade um fato “inferior” e menos devastador no médio e longo prazo.

Espantoso como ainda tem gente a defender que se você é atriz, se você é a Carolina Dieckmann, e é da Globo, se você posa nua para o seu namorado, marido, geladeira ou papagaio, você tem que ser “punida”. (Ah, o velho Freud!!!)

Espantoso como tem gente que entende e deixa escapar (mas nem percebe) que se você for mulher, e ainda mais se for bonita e, além de tudo, célebre, você tem mais é que expiar (e ser espiada) em praça pública. Gente que deixa vazar nas entrelinhas e até mesmo nas linhas… “Se você é uma vaca famosa e bela que posou nua dentro da sua casa, que se dane”.

Espantoso como tem gente que ainda não entendeu que o computador, o celular, o diário, o escambau de uma pessoa é, deveria ser, tão inviolável quanto a casa de cada um. Não entendeu que hoje é um pilantra ou um doente invadindo o computador e amanhã pode ser a polícia, pode ser o Estado sem ordem judicial alguma. Como é, a propósito, na China, no Irã…

Essa gente pensa e prega isso e, assim, claro, até o dia em que alguém invadir o computador do cara ou da cara e mostrar quem realmente a pessoa é, pensa e faz. Como cada um é, pode ser, visceralmente… humano.

Isso, claro, até o dia em que alguém invadir a privacidade do marido, da mulher ou dos filhos de quem assim prega, e jogar tudo no olho da web.

Espantoso como a burrice tá ganhando de goleada.

Bob Fernandes – Terra

Li um artigo que me lembrou de algo que eu não tinha me dado conta ainda: existe mais informação em jornais num fim de semana do que todas as que um investigador da Idade Média tinha ao seu dispor durante toda a sua vida… Não sei se acontece com outros, mas está me incomodando – não agüento mais tanta notícia, tanta dica… Da mesma forma que o “colega” da Idade Média, estou convencido de que não conseguirei absorver tudo o que chega ao meu conhecimento numa vida… São jornais, revistas, blogs, sites, facebook, twitter, emissoras de rádio e televisão (agora com canais de toda parte do mundo), e-mails, mala direta, cartas, panfletos, autofalantes e todo tipo de estratégia criada para empurrar goela abaixo o que nos interessa, e também o que não estamos nem aí…

Tenho esse receio porque acabo não dispensando nada, virou doença, estou contaminado por essa “virose”… Sou daqueles que lêem e-mails a cada meia hora, que ficam realizados quando tomam conhecimento de novidades quase no mesmo momento em que elas acontecem. Num dia desses, fui “flagrado” (por mim mesmo…) escutando rádio, acessando sites na internet e olhando televisão. Alguém pode duvidar, mas tento… Concordo que cheguei ao limite da insanidade: certa vez, estava de olho em todas as mídias quando, em certo momento, enquanto um veículo dava uma notícia, outro a desmentia… Mas continuei atento, garimpando todo tipo de “ruído” para saber quem estava, afinal, falando a verdade. De concreto, só ficou a confusão na minha cabeça…

É muita informação. Todas são discutidas em fóruns lotados de malucos. Verdades absolutas e inquestionáveis logo são desmascaradas. Elas implicam com tudo: devemos tomar cuidado com cerveja acondicionada em latinhas, pois grandes e mortíferas bactérias estão prontas a contaminar quem encostar a boca nas mesmas; uma fábrica já colocou uma película por cima da abertura da lata… Tomei conhecimento, também, que na inocente caixinha do leite, além da data de validade, existem uns misteriosos sinais que dizem quando o leite é perigoso… Aviso de desaparecimento de criancinhas é freqüente. Se não o repassarmos para o maior número de pessoas, corremos o risco de sermos torrados no fogo do inferno para sempre…

Para as mulheres também existem dicas incríveis: li num blog que elas não devem deixar caras que saem dos banheiros, em festas, tocá-las de maneira alguma. Que, desde a balada mais brega até a mais chique, é difícil ver homens lavando as mãos, que eles só dão aquela ajeitada no cabelo e “esquecem” de lavá-las. Por isso, elas devem evitar caras que chegam pegando… O castigo para quem não obedecer ao conselho é pegar dezenas de “pintos” por tabela… É um sábio ensinamento…

Fui informado, também, de que eu deveria colocar no lixo a minha amada discoteca em vinil; que era algo pré-histórico, peça de museu. Como quase todo mundo que conheço, obedeci ao conselho e substituí todos os meus vinis por cds, mp3 e toda a parafernália eletrônica. Até o meu cultuado Chet Baker tocando e cantando My Funny Valentine foi junto… Hoje a internet está dizendo que o vinil está de volta, que “virou cult” escutar música na velha forma, que o som dos velhos vinis é inigualável, e que os maiores artistas do mundo estão lançando suas músicas nos bolachões…

Fizeram-me até acreditar que não precisaria mais ir a restaurantes, que é perda de tempo e um gasto inútil de gasolina. Que era só telefonar e em quinze minutos o motoboy estaria me entregando os mais variados produtos. Mentira! Com o maldito trânsito entupindo todas as ruas, num dia desses acabei jantando, à meia-noite, logicamente uma pizza fria acompanhada de refrigerante quente… É isso aí: não posso mais tomar minha cervejinha em lata sem esterilizá-la; o leite tá perigoso; acabei trocando meus velhos discos de blues e jazz por insensíveis mídias eletrônicas que ficam à disposição do humor do computador.

Estava quase mandando tudo para o inferno e me mudando para Santa Catarina. A ideia foi logo abandonada porque aquele paraíso está inundado de gente que teve o mesmo pensamento, com engarrafamentos, pedintes, motoqueiros, violência, e tudo mais que acompanha o tal modernismo. Está difícil viver, estou esperando sugestões, de preferência, sem as dicas infalíveis que circulam nas internets da vida…

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Depois que a imprensa divulgou a quantidade de recursos que as Assembleias Legislativas estão disponibilizando aos deputados pelo Brasil afora, resolvi fazer um apelo em defesa do meu dinheiro… É um apelo de alguém preocupado com a distância (cada vez maior) dos salários dos que recebem em relação aos salários dos que pagam… Esse assunto precisa passar a ser tema de campanha eleitoral. Não questiono se deputados merecem ter uma verba indenizatória de cem mil reais mensais, mais dois mil e quinhentos relativos a diárias quando viajam, mas pergunto: por que isso é decidido como se fosse algo irrelevante… Aplaudo uma Assembleia que resolveu diminuir os dezoito salários anuais de seus deputados para quinze… Que exemplo de patriotismo e desapego a valores materiais…

A Ordem dos Advogados do Brasil – OAB trouxe à tona um assunto que estava “deitado em berço esplêndido”… A entidade informou sua intenção de questionar junto ao STF a inconstitucionalidade de leis que concedem pensões vitalícias a alguns ex-governadores, não sei em que pé está. Um dos beneficiados acumula pensão com salário de estatal, outro diz que merece porque “cumpriu seu mandato com a melhor dedicação possível…”. Um dos beneficiados foi além, pede um milhão e seiscentos mil reais retroativamente. Diz que vai “doar” a importância a instituições de caridade… Li num jornal que a filha de outro – que exerceu mandato no século dezenove – recebe pensão, apesar de ser proprietária de um cartório. Fico por aqui…

Espero que eles tenham sensibilidade suficiente para compreender que isso é preocupante, que entendam a inquietação dos contribuintes. No mundo civilizado, a ideia da cobrança de impostos é compreensível, mas quem sofre essa imposição precisa ter certeza de que está ajudando a construir um país melhor. Ela não pode ser reduzida a pagamento de salários auto-reajustados em sessões que duram alguns minutos. Também não quero ver meu dinheiro ser usado para sustentar pensões vitalícias de quem exerceu uma função pública por alguns anos, alguns meses, e, dizem, até alguns dias… Existem casos que os benefícios são maiores do que as remunerações dos atuais titulares. Não é difícil perceber que não ser reeleito passou a ser um bom negócio…

Se tudo continuar do jeito que está, espero que eles tratem com carinho algo que pode não trazer felicidade, mas, com certeza, ajuda muito… Estou sentindo desconforto em pedir em causa própria, mas tomo essa atitude porque sempre tratei com carinho as coisas que me ajudam a viver, não posso esquecer de quem ocupa um espaço grande entre os meus “afetos” – o meu imprescindível dinheiro… Embora pouco, ele sempre esteve ao meu alcance, agora sinto que estamos ficando distantes, virando estranhos… Mesmo achando nobre a finalidade, não consigo deixar de imaginar a cena: ele indo embora sem eu fazer nada para protegê-lo. Quase disse: vai “meu filho”, toma cuidado, fica longe dos aproveitadores; eles vão tentar te usar sem nenhum escrúpulo. Pede socorro e avisa as autoridades se tentarem, também, te despachar para terras distantes, com mar, sol, cerveja da melhor qualidade, e uísque doze anos…

Deixo claro que não estou defendendo a extinção da representação parlamentar, que não defendo a mendicância como meio de vida para ninguém, em especial a classe política Estou consciente de que essa representação faz parte de uma democracia que o povo brasileiro conquistou com luta e sofrimento. Este apelo visa apenas pedir que o dinheiro público seja utilizado de maneira que beneficie a todos os brasileiros. Está na hora de revermos alguns costumes, certas despesas precisam ser repensadas – o feudalismo não pode ser ressuscitado…

Concluindo, reafirmo minha crença de que o que está em jogo não é a democracia, e, sim, a responsabilidade necessária na utilização da representação política. Ela não pode servir de pretexto para enriquecimento de quem ocupa função pública. Nossos representantes nos devem explicações, questões importantes não podem ser decididas de costas para quem os elegeu. Alguns brasileiros precisam entender, de uma vez por todas, que, em pleno século XXI, não há lugar para gente que pensa que pode usar dinheiro público como se ele existisse apenas para servi-la…

Lembro que tudo isto que o povo brasileiro está assistindo não é inédito na história dos povos A primavera árabe mostrou para todos que certos costumes cansam, ninguém atura eternamente injustiças e privilégios. A mudança pode ser feita enquanto é tempo.
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PS: Nada existe de permanente a não ser a mudança…

Quando morrem personalidades, lembro de Juan José Sebreli, sociólogo argentino que visitou Porto Alegre tempos atrás. Na obra Comediantes e Mártires – Ensaio Contra os Mitos, ele questiona nomes até então intocáveis em seu país. Fiquei impressionado, ele fala sem papas na língua de gente como Evita Perón, Che Guevara, Carlos Gardel e Maradona. Segundo ele, Eva Perón era uma mulher submissa; Gardel preferia cantar fora da Argentina; Guevara, um idiota político, e Diego Maradona, um fracasso que faz dinheiro… Acho saudável para a democracia a existência desse tipo de intelectual. Eles são necessários, todos os lados precisam ser analisados. Constato que isso não acontece entre nós, embora Nelson Rodrigues, dramaturgo, jornalista e escritor cultuado, tenha dito uma frase lapidar, que é repetida constantemente: “Toda a unanimidade é burra!”.

Seria bom que surgisse, entre nós, gente como Sebreli – incômodo e inquieto, ele teve a coragem de questionar mitos, alguns ostentando uma unanimidade quase agressiva e arrogante. Há pouco, vivemos no Brasil a “era Lula”, um presidente que fez coisas, segundo ele mesmo, “nunca antes vistas neste país”… Questioná-lo em sua época sobre apoios que deu a grupos radicais, a políticos acusados de corrupção, a ajudas econômicas a países vizinhos perdulários, e tantas outras coisas, era quase um suicídio político e intelectual. Qualquer cidadão poderia ter dito que essas ações eram discutíveis, que podiam ser melhoradas, ou canceladas, embora ele achasse impossível. Ficou difícil ser contrário a coisas que o presidente repetiu que eram inigualáveis, pois ninguém de bom senso se atreveu a questionar alguém que verbalizava tudo o que lhe vinha à cabeça, amparado por uma aprovação popular quase total…

Essa unanimidade é perigosa. Já tivemos outras situações como essa na nossa história. Lembro Getúlio Vargas, Fernando Collor, e até José Sarney no auge do “Plano Cruzado”, quando populares fechavam supermercados em nome do presidente… Não vou falar de outros nomes, pois estou longe de ser um Juan José Sebreli, mas pensadores como ele estão fazendo falta em nosso meio. Sebreli foi entrevistado por um jornal de Porto Alegre, na “Página de Cultura”; ele explicou suas ideias, e a razão de nadar sempre contra a corrente. Perguntado quando usou o termo “adoração”, se a massa santifica o mito, respondeu que sim, que é uma forma de religião. Que os líderes totalitários e autocráticos formam uma espécie de religião política. Que, quando morrem, como no caso de Che Guevara, por exemplo, as pessoas pedem até graças em seus túmulos, como acontece com Che, apesar dele ter sido ateu.

Perguntado se o fato dos ídolos serem figuras próximas e imperfeitas facilita a entronização no imaginário popular, disse que há um processo psicológico e contraditório, de identificação e projeção. Que a massa se identifica com esses ídolos na medida em que a maior parte deles foi muito pobre, ou teve uma infância infeliz, passou por dissabores, o que permite a identificação do povo com eles. Mas ao mesmo tempo esses mitos, depois de passarem por todas essas infelicidades, misérias, humilhações, chegam ao ápice do prestígio, da fama, da glória, até mesmo do dinheiro. Aí se coloca a projeção. São dois movimentos que parecem contraditórios: de identificação com os aspectos dolorosos que podem ter vivido em algum momento de sua vida, e ao mesmo tempo por haverem triunfado, sobre eles acendido a luz deslumbrante – são os motivos pelos quais provocam essa adoração. O ídolo é alguém como nós, mas ao mesmo tempo é o que chegou aonde não pudemos chegar, encerrou ele.

Quando leio essas colocações do sociólogo argentino, não consigo deixar de lembrar de Médici, Roberto Carlos, Millor, Chico Anísio, Geisel, Brizola, Collor, ACM, Sarney, Lula, Vargas, Senna, Pelé, Zagalo, FHC, Ronaldo Nazário e tantos outros. Por favor, não estou fazendo nenhum tipo de comparação, apenas estou lembrando que eles estão ou estiveram no auge. Em suas épocas, poucos os criticavam e muitos aproveitavam suas popularidades. Não adianta dizer que o Médici censurava a imprensa. É verdade, mas ninguém obrigava o povo a aplaudi-lo no Maracanã lotado em dia de futebol, quando aparecia com um radinho colado no ouvido. Criticá-los hoje, derrubá-los de seus pedestais agora, é uma tarefa possível, exequível. Mas a hora de aparecerem os iconoclastas é quando os “mitos” estão no auge, alguns com uma popularidade quase atingindo a unanimidade e fazendo coisas que nunca antes foram vistas em certos países pelo mundo afora…

Qualquer semelhança não é coincidência – é inevitável…

Recebi uma mensagem com a qual aprendi novos significados para antigas palavras. Veio em boa hora, eu andava esquecendo que as palavras podem significar bem mais do que parecem. Gostei dos novos significados, eles me abriram outras possibilidades. Vou comentar alguns, peço que o autor não se incomode, seu nome foi omitido na mensagem original. Graças a ele descobri que “ainda” é “quando a vontade está no meio do caminho”. Por isso um “ainda” nunca é definitivo, deixa sempre uma expectativa. Descobri também que a lágrima pode ser definida como “um sumo que sai dos olhos quando se espreme o coração”. É uma imagem forte, não sei se terei coragem de olhar o que sobra de um coração espremido – é difícil separar emoção de lágrima.

Após cada revelação eu me perguntava por que ando usando palavras com tanta economia. E a amizade? Alguém desconhece sua importância? É impossível viver sem amigos, talvez seja por isso que ela tenha tantos significados. Aprendi que é “quando você não faz questão de você e se empresta para os outros”. Emprestamo-nos para os outros? Sim. Demorei pra perceber isso, que às vezes “viajamos” para nos “emprestar” aos outros… De repente me veio a imagem de um boteco enfumaçado (quando isso ainda era possível), madrugada chegando e a gente escutando dramas. Ficávamos ali, “nos emprestando”, deixando de “sermos nós”, para consolar, para repetir que a vida é sempre melhor do que parece…

Depois foi a vez de uma palavra perturbadora – “abandono”. É difícil encontrar outro significado pra ele, mas o cara conseguiu. Ele mostrou que o abandono pode ser suavizado para diminuir a tristeza. Mesmo que o abandono machuque, a poesia pode ser empregada para defini-lo definitivamente: é “quando o barco parte e você fica…”. É verdade. Dói ficar num porto qualquer, assistindo levarem uma parte de nós, embora sempre passe outro barco para carregar o que restou para portos mais confiáveis. Mais uma: “sentimento”. Além de ser aquela coisa que toma conta de tanta gente sem pedir licença, ele também é “a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado”. Hoje estou convencido de que o coração é poliglota, deve ser por isso que eu não conseguia entendê-lo, sempre tive a sensação de que ele usa um idioma estranho para falar comigo.

Agora a definição perfeita. A explicação para minha inseparável ansiedade. Eu não entendia o significado exato dessa sensação. Hoje tenho o diagnóstico: “é quando sempre faltam cinco minutos para o que quer que seja”. Estou aliviado, não sou maluco. Sempre tive a sensação de que me concediam pouco tempo pra tudo, hoje sei que eram cinco minutos – nada mais… Já uma outra palavra, a “indecisão”. Ela incomoda, geralmente adia a felicidade, maltrata. Meu amigo anônimo diz que ela acontece “quando você sabe muito bem o que quer, mas acha que deveria querer outra coisa”. Quem não passou por isso? O pior é que sabemos realmente o que queremos, embora estejamos sempre com o olho em coisas distantes, bem longe das coisas possíveis…

Agora aquele sentimento que esperamos das pessoas depositárias da nossa confiança – lealdade. Sabemos a importância da amizade, de um amor leal, mas a explicação para lealdade superou minha expectativa: “é uma qualidade dos cachorros, que nem todo o ser humano consegue ter”. Realmente, nem todos conseguem conservar intacto esse atributo. A associação é perfeita. Diferente dos homens, neles a lealdade é algo inato, nada os faz trair. Mas para lembrar o que sentimos quando alguém é desleal, nada é mais claro do que o sentido dado à palavra “decepção” Percebemos imediatamente sua proximidade “quando, quase de maneira automática, riscamos em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho…”. Precisa mais?

Finalmente, a última. É o beijo, algo que eu imaginava não precisar de palavras para ser definido. Estou falando do beijo de amor, diferente do beijo do Judas… A definição ajuda a entendê-lo mais: é “um procedimento inteligentemente desenvolvido para a interrupção mútua da fala quando as palavras tornam-se desnecessárias”. Iria ficar por aqui, mas não resisti a mais um novo significado. É sobre a “felicidade”. É “um agora que não tem pressa nenhuma”. Ainda bem, a felicidade quando nos procura precisa ser bem tratada, acarinhada, bajulada. Talvez assim ela fique o máximo possível nos apertando em seu peito.

Assisti a um show do grande Baden Powel pouco antes dele falecer. Notável violonista, excelente compositor, era também um grande contador de estórias. Gostei das músicas, mas gostei mais ainda das estórias… Contadas numa linguagem coloquial, parecia uma conversa de bar. Baden foi sempre cultuado e admirado pelo mundo artístico, trabalhou com gente da pesada no mundo da música: Tom Jobim, Chico Buarque, Vinicius, Edu Lobo e por aí afora. Falou dos velhos companheiros e lembrou fatos deliciosos. Lembro de um, em especial. Num fim de noite, depois de muita música e uísque, um deles foi até a janela do apartamento e voltou com cara de sério: “Pessoal, vamos embora que ele está chegando”. Os outros, sem nada entender, quiseram saber quem era o tal cara que chegava. Depois de um suspense, ele informou solenemente: “O sol!”…

Quando chega o fim do ano, tenho essa mesma sensação. Tal qual a estória contada no show, noto que “ele” está chegando. Ele mesmo, o verão. Para meu desespero, passadas as festas, ele chega. Neste ano veio com tudo. Num fim de semana desses, enfrentei um calor de beira de fogueira – um termômetro da rua chegou a marcar quarenta e dois graus. Verdade: quarenta e dois… Quase pirei quando o locutor da rádio que eu ouvia no carro disse com a maior naturalidade: “Tempo bom, o sol permanecerá radioso até o final da semana – não há previsão de chuva…”. Tradução: o calor infernal não tinha previsão para ir embora. Cheguei ao meu destino sem vontade de abandonar o ar condicionado, sem coragem de desfrutar o “tempo bom acompanhado do radioso sol…”.

Essa reserva que tenho pelo sol forte é antiga. Lembro que minha primeira lotação na PF foi em São Luís do Maranhão. Lá chegado, em tempos idos, recebi uma missão para viajar com outros companheiros para o interior do estado. Naquela época sem estradas, usávamos animais para deslocamentos em alguns trechos. Sem conhecer o sertão nordestino, não tinha noção da potência do astro-rei… Estava firme na minha “montaria” (um jumento equipado com sela de madeira…), quando aquele sol terrível começou a mexer com os meus miolos. É fácil adivinhar o que aconteceu: caí desfalecido e só acordei muito tempo depois, sem idéia de onde me encontrava…

No Rio Grande do Sul, onde moro, o verão (calor), diferente de outros lugares, é “desfrutado” durante dois meses: janeiro e fevereiro. Quem não consegue “veranear”, isto é, deslocar-se até a praia, se julga a criatura mais infeliz do mundo… Felizmente, há exceções. Alguns, como eu, que também não se ligam em praia, criaram a Sociedade Amigos de Porto Alegre, a SAPA. A sociedade defende que não há lugar melhor para veranear, morar, viver do que Porto Alegre, quando seus habitantes se transferem para as praias… Concordo plenamente com o que eles dizem. Adoro a cidade nesta época. Ela fica bem mais calma, até porque, para minha alegria, camelôs, ladrões e assaltantes gostam de sol também, adoram veranear… Desaparecem os engarrafamentos infernais que somem por encanto e a cidade fica habitável, do tamanho que deveria ser…

Gosto de ouvir os noticiários das rádios – sou viciado em notícias, mas nesta época fica terrível escutá-las. Elas são repetidas até a exaustão, como se fossem os acontecimentos mais importantes do mundo: quantos carros estão indo para a praia “por minuto”, quantos estão voltando. Diariamente temos acidentes. É feito um levantamento completo: vítimas fatais, feridos, bêbados no volante. Isso é repetido todo dia, toda hora. Precisamos saber também a temperatura em todas as praias, dezenas delas e até as de Santa Catarina… Sem falar no espetacular campeonato de beach soccer, com entradas de repórteres para informar quantas casas foram arrombadas e quantos argentinos foram detidos viajando a trezentos quilômetros por hora, e por aí afora…
Sou obrigado a confessar que me sinto estranho nesta época. Neuroticamente sinto que está faltando alguma coisa nas ruas de Porto Alegre. Dei-me conta, claro, flanelinhas e similares estão na praia… Que maravilha as ruas sem eles, chego a pensar que poderíamos também ser “donos” dos espaços públicos loteados sem permissão de ninguém… Mais: incrivelmente diminuem os pedintes e os chatos de toda espécie. Até aquela figura que enfia todo tipo de mercadoria na minha cara nos semáforos não está no lugar de costume… Cadê o engolidor de fogo? Meu Deus, praia e sol são maravilhosos mesmo, vou acabar mudando os meus conceitos…

Finalizando, comento o debate do verão no Rio Grande. Como sempre envolve o Grêmio e o Inter… Onde serão realizados os jogos da Copa? No Beira-Rio, ou na nova arena gremista? A dúvida é grande… De um lado um estádio reformado com quarenta anos de idade. Do outro, uma arena nova, considerada uma das mais modernas do mundo. O maior jornal da cidade exibiu uma caricatura da presidente, na qual ela diz que não admite que o estádio do Inter não seja confirmado: “É o meu clube, não há hipótese que isso seja mudado”. Tradução: sou a dona da bola, se não for assim, não há jogo. Bem feito para um gremista como eu, que um dia ousou imaginar que não existia coisa pior do que o sol…

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O assunto do momento é o julgamento do assassino da menina Eloá. Fiquei impressionado quando a defesa arrolou a mãe da vítima como “testemunha de defesa”… Desisti desse assunto, prefiro comentar o Brasil num todo – estou com a sensação de que precisamos começar tudo de novo… Como é impossível os portugueses “descobrirem” novamente o país, está na hora de refundá-lo. Com o devido respeito aos ufanistas, acho que essa tarefa precisa ser realizada, é evidente que nesse meio milênio foi construído apenas um projeto de nação.

Não adianta culparem Dom Pedro, Getúlio, Juscelino, Jango, Jânio, Collor, Sarney, Fernando Henrique, Lula, Dilma, militares, socialistas, capitalistas, e sei lá mais quem. Ninguém suporta mais a existência de privilégios somados a uma corrupção sem fim, na qual inescrupulosos se unem para extorquir o Brasil e o povo brasileiro. Dizem que é difícil puni-los, que é culpa do “Ordenamento Jurídico”, monstrengo que só falta admitir que corrupção vire lei, que permite que processos se arrastem, esquecendo que justiça tardia é injustiça.

Quando infratores são presos ou processados, é grande a repercussão, manchetes vendem jornais, a televisão tem a audiência aumentada, mas logo tudo cai no esquecimento. Sem demora, “figuras carimbadas” voltam ao cenário público e político, “ressuscitados”, muitas vezes, pelos mesmos que exigiam punição. Ao constatar isso, é impossível acreditar que ninguém tentou mudar esse estado de coisas, mas algo precisa ficar claro: essa missão é pesada demais para uma pessoa, ou para um partido político e sua ideologia.

A construção de um país ético e justo é missão para todos. O povo não pode ficar unido apenas em Copas do Mundo de futebol. A união precisa acontecer também para exigir que a corrupção e os privilégios tenham fim, para impedir que o “jeitinho brasileiro” deixe tudo do jeito que está, com muitos recebendo salários incompatíveis com a realidade, amparados por legislações absurdas, que permitem um tratamento desigual entre funcionários dos poderes da República. Exemplo disso: policiais legislativos recebem salários maiores do que policiais com muito mais atribuições, que arriscam suas vidas em defesa da sociedade.

Para isso ser mudado, é preciso mais do que exceções à regra. Está na hora dos brasileiros deixarem de achar normal o anormal, como acontece quando uma fila é desrespeitada, quando o fisco precisa usar helicópteros para identificar mansões clandestinas, quando é pedida uma sinecura para um parente, quando uma vaga de deficiente é ocupada indevidamente, provas escolares são fraudadas, agentes públicos são subornados, alguém consegue uma licença médica sem estar doente, ou vendem remédios que deveriam ser doados aos pobres, e tantos outros comportamentos reprováveis.

Sem esquecer que políticos acusados de corrupção precisam deixar de afrontar a nação quando dizem que são inocentes, apesar de todas as evidências em contrário; que só saem à bala de postos que não honraram; que o cargo é “cota” de seus partidos. Mais: a maioria não votou nessa gente, não votou no partido deles. Por que a presidenta precisa nomeá-los para viabilizar um governo que conquistou legitimamente nas urnas? Mais ainda: não pode ser esquecido também que alguns foram filmados com dinheiro escondido em pastas, em cuecas; recursos que poderiam ter sido investidos na saúde, na educação, num sistema de segurança no qual policiais com salários aviltantes precisam fazer greves, deixando cidadãos indefesos sofrendo todo tipo de violência e constrangimento.

Talvez seja preciso muitas gerações para que esses comportamentos sejam banidos. Para que entendam que segurança, saúde e educação são serviços essenciais, que os profissionais que trabalham nessas áreas precisam ser respeitados e valorizados. É evidente que policiais que dão segurança para o povo não podem ganhar salários de fome – se não podem fazer greves, não podem passar necessidade. Da mesma forma, os professores que formam as novas gerações, e, certamente, os médicos e serventuários da área de saúde que tomam conta de doentes, às vezes até salvando suas vidas.

Quando os brasileiros se derem conta da força que têm, talvez esses absurdos sejam corrigidos. Ver brasileiros comendo lixo debaixo de viadutos, ou admitir que condenados paguem suas penas em locais desumanos é abominável. Não podemos deixar que o desespero nos torne coniventes com toda essa porcaria – um país mais justo precisa ser construído. Há cinco séculos um projeto procura uma nação. O Brasil precisa ser refundado, é preciso começar tudo de novo!

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Certa vez, o filósofo Sartre disse que “o inferno são os outros”. Não sei se essa afirmação resiste a uma discussão, mas quem concorda com ela deve acreditar que o olhar dos outros nos objetiva, nos torna reais. Quanto a mim, acredito que olhares alheios não devam ser subestimados, embora seus donos não sofram por nós, não paguem as nossas contas… Acredito que esses olhares fazem parte de um jogo em que a competição está sempre presente. Seja no trabalho, no amor ou no esporte, tentamos vencer mostrando o melhor de nós mesmos, embora saibamos que eventuais árbitros tentam enxergar bem mais do que gostaríamos…

Essa “viagem” ao mundo interior me fez pensar em coisas complexas, mas resolvi falar de algo mais ameno, lembrar de um personagem no nosso cotidiano – o “Mala”… Tentando entendê-lo, me deparei com um tratado. Descobri que os “malas” estão mais presentes do que imaginamos, e até fazendo parte dos nossos afetos… Dei-me conta de que busquei abrigo no Sartre para dizer, como todo mundo, que “malas são os outros”. Felizmente percebi algo que me trouxe de volta a lucidez: somos todos “malas sem alça”, não tem escapatória, a diferença é a dose…

Cheguei a essa conclusão depois de ler uma obra chamada “O Mala”. O autor precisa vender seu livro, mas ouso comentar alguns de seus personagens e expressões, o que certamente ajudará a popularizá-lo entre meus “milhares” de leitores, que, da mesma forma que muitos, podem prometer (de joelhos) que evitarão algumas “malices” que teimam em colar na gente… Começo pelo “mala da internet”. Ele nos diz, entre outras, e pela milésima vez: “Esta não é uma corrente convencional. Todos sabem que odeio esta metodologia. Mas recebi este e-mail e achei que devia repassá-lo. Por favor, façam o mesmo”…

Existem as “malices de velório”. Não são apenas personagens, são também comportamentos e expressões. Alguns deles: chorar escandalosamente quando aparecem visitas; exaltar de maneira exagerada o defunto; lembrar da última vez que o viu (ninguém escapa…); perguntar a idade do falecido (não falta nunca); cair em lugares comuns e dizer: “não somos nada”, “estamos de passagem”, e outras malices do gênero (quem nunca disse, atire a primeira pedra). Chega! Chega!

E as “notícias malas”? Elas conseguem torrar a nossa paciência sem acrescentar nada. Exemplos: “Na Universidade de Princeton, dizem que fazer amor em jejum reduz os riscos de câncer na próstata”. “Cientistas russos afirmam que a ingestão de sementes de tomate provoca 39% dos casos de osteoporose. Recomenda-se limitar o consumo”. “Em Nova Déli, um bebê de dois dias reconhece perfeitamente sua mãe através de um choro diferenciado, segundo indicaram familiares”. “Milhares de fiéis se concentraram em uma modesta região ao sul de Moçambique para ver uma menina que recita indecifráveis cânticos que, segundo dizem, podem ser religiosos”. Não precisa mais, né?

Voltando ao mala, Ele, o “mala apaixonado”: No dia do aniversário da amada, pode desde contratar um bloco carnavalesco até colocar um anúncio no jornal declarando seu amor. Compra os cartões mais extravagantes e se transforma num expert em bichinhos de pelúcia… Encontra desculpas para telefonar à amada a todo o momento. Conhece mais a rotina diária da namorada do que a dele próprio. Aceita ir à academia onde ela vai, ainda que seja o único homem da aula… Uma pra finalizar: faz as tarefas mais ridículas da casa dela, desde recolher o lixo até ser o eletricista, mesmo que seja médico cirurgião…

O último, para não estragar a surpresa do livro. Esse preocupa um bocado de gente – o “mala velho”. Ele sabe tudo. Do mesmo modo que as crianças e os loucos, ele segue a onda. Eterno nostálgico do passado. Expositor de longas e entediantes conferências sobre temas irrelevantes. Costuma juntar coisas inúteis que já não tem onde guardar. Se alguém lhe dá uma carona, ele é quem xinga os outros motoristas. Todo o dia critica familiares que o toleram, gerando discórdias entre eles. Nunca tente explicar algo a um velho mala. Você acabará escutando seus desaforos.

Fico por aqui, embora pudesse descrever muitos outros tipos de malas. O livro é didático, até para deixarmos de dizer que “o inferno são os outros”, e, como diz o seu autor, “permite que cada um olhe para sua própria alça e descubra que grau de malice já atingiu”…

Quando janeiro se aproxima, começo a ficar inquieto – é tempo de Big Brother. Assisto ao BBB, não pretendo deixar de fazê-lo, mas existe algo que me incomoda pela insistência: o indefectível patrulhamento. Depois de ler o que alguns escrevem sobre o programa, saio de casa com a impressão de que todos que me olham comentam entre si: “ali vai ele, é o cara, ele assiste ao Big Brother, temos que intensificar a campanha no ‘Face’…”. Estou preocupado… Vou acabar me convencendo de que sou o único que olha o BBB, embora as pesquisas de audiência digam o contrário.

Volto pra casa e só bem mais tarde acesso o Facebook. Eles continuam lá, repetindo palavrões, ofensas. Escrevem de uma maneira que parecem acreditar que habitam um lugar privativo de gênios, logicamente invadido por eles sem a menor cerimônia, sem ao menos usarem pulseirinhas VIP no pulso… Certamente são íntimos de Borges, de Joyce (alguns escrevem em inglês); devem ter visto Nureyev no Kirov, e por aí afora. Não entro no mérito, cada um pode criticar o que quiser. Talvez um dia eles entendam que o BBB é entretenimento, não tem como objetivo instruir, formar, capacitar. Talvez um dia entendam que o BBB não foi criado para influenciar telespectadores. Só não consigo compreender por que eles olham algo que abominam.

Na condição de gênios, certamente não precisam da minha colaboração, mas longe de estabelecer qualquer tipo de confronto, elaborei uma lista com sugestões que, embora óbvias, podem ser utilizadas por eles na hora em que o BBB estiver sendo exibido. No carnaval, poderiam assistir ao desfile das Escolas de Samba, quando tomariam conhecimento de enredos tipo “A Visita da Nobreza do Riso a Chico Rei, num Palco nem Sempre Iluminado”, da Caprichosos. Ou assistir, na TV, ao desfile do “Galo da Madrugada”, do “Homem da Meia Noite”, na bela Recife, ou ainda acompanhar os Trios, na Bahia, durante quinze dias ininterruptos…

Outra dica é olhar o CQC, mas um aviso importante, desde que não seja “ao vivo”, pois o Rafinha pode ter voltado. Se ele queria “comer” a Vanessa e o filho dela, ele pode ter piorado – o risco é grande… Podem alugar filmes do Harry Potter, sem esquecer dos “Piratas do Caribe”. Assistir à TV Cultura, Sesc, Telecurso, o Globo Repórter, o Ecologia, o Ciência, por aí, sem falar nas missas e nos “milagres” dos Bispos, onde “deficientes visuais” voltam a enxergar, e “deficientes físicos” recuperam movimentos, apenas orando e pagando dízimo… Tem futebol americano, rugby, canastra e as sensacionais lutas com o Minotauro e o Minotouro em ação, enfim, tem gosto pra tudo.

Finalmente, faço um pedido para alguns amigos: durante os paredões peço que eles votem quando eu não puder (depois informo meus candidatos preferidos)… Prometo que não vou comentar com ninguém, não vou divulgar seus nomes na internet. Logicamente, também quero pedir perdão por olhar o BBB. Não levem a mal, não sou tão desprovido de inteligência, continuo querendo bem vocês, e não esqueçam: assisto ao Big Brother Brasil, mas sou um cara do bem – assisto ao BBB, mas sou limpinho… Não esqueçam que existe gente pior, como políticos sujos que fazem todo tipo de coisa ruim e aparecem em rede nacional negando tudo, e afirmando que não fizeram nada, que é tudo mentira. O Face precisa ser usado nestas horas, pau que dá em Francisco precisa dar em Chico…

Concluo dizendo que continuarei de olho nas redes sociais, que esse texto não é dirigido a ninguém em particular, é apenas um apanhado do que sinto no momento. É claro que milhões de pessoas continuarão vendo o BBB, da mesma forma que continuarão vendo tudo de bom e de ruim que a TV nos oferece. Numa democracia, cada um tem o direito de escolher.

PS: mentiras são verdades que não aconteceram…

Não gosto de praia. Não pretendo mudar de opinião, mas não quero que a intolerância tome conta de mim e, por isso, costumo visitar o litoral para desfrutar da companhia de pessoas que quero bem, até para entender a romaria que multidões fazem em direção ao mar. Foi o que fiz no fim do ano; dei uma olhada na orla, embora estivesse pensando no clima ameno da serra, na civilidade que a envolve, com seus restaurantes tomados por gente tranqüila e sem stresse. Na serra fico à vontade, esqueço o caos, especialmente, dos “guardadores” de carros, dos fiscais de trânsito e dos achacadores de toda a espécie.

Não vou repetir antigas queixas, mas me permito comentar algumas novidades que encontrei desta vez, que fizeram o ponteiro da minha paciência quase passar do limite. Convenci-me de que a máxima que diz que “em tudo na vida se pode tirar algo de bom” é verdade – descobri que a praia também não simpatiza comigo… Cheguei equipado: calção, chinelo, boné, bronzeador poderoso, óculos e todas as tralhas usadas para duelar com o maldito calor. Algo incrível aconteceu: o inverno me acompanhou. Só a caipirinha “compreendeu” o meu drama, dando o “apoio” que eu necessitava para suportar frio, vento e um mar gélido, tudo ao mesmo tempo, acompanhado ainda da falta de energia elétrica…

Numa estrada que não tem data para ser concluída, já percebia algo preocupante: muitas praias não teriam condições de acomodar todos. Preocupado, via a multidão viajando em todo tipo de carro, alguns tão antigos que seria um milagre chegarem ao destino. Já outros, corriam muito mais do que os anjos deles podiam voar… Na chegada, o óbvio: deslocamentos em cidades praianas só podem ser feitos a pé, com exceção de um novo tipo de criatura que infesta o litoral. Elas circulam em estilosas e minúsculas camionetas que dispõem de lugares para duas pessoas na cabine e de um espaço no bagageiro para acomodar umas duzentas toneladas de som…

Em frente ao mar, percebi que o equipamento não foi levado em vão, que a parafernália não ocupava um espaço tão grande à toa, e algo preocupante: seus donos não calibram suas paranóias… As camionetas andam por toda a parte, o barulho me fazia ter a impressão de que o meu coração ia saltar de dentro do peito… A música escolhida era a mesma o tempo todo: funk carioca e rap americano… Depois de ouvir funk e rap, senti uma saudade danada do pagode e do sertanejo… Até o Teló e o “Meteoro” eu tava encarando… Alguns detalhes são cruéis na praia: ceva a “oito pila”, e cidades pequenas com edifícios imensos, roubando o sol e a circulação de ar. Quando os funkeiros dão um tempo, logo são substituídos por bicicletas com alto-falantes e propaganda gravada, com uma intensidade incrível para suas insignificâncias…

O verão nos brinda com outras pérolas. Sou obrigado a escutar nos finais de semana: quantos carros estão se dirigindo para as praias, quantos acidentes aconteceram e ouvir um milhão de vezes que as pessoas não devem beber, não devem correr, devem usar cinto de segurança, usar o acostamento corretamente, ter cuidado com as crianças, etc.etc. Na volta, começa tudo de novo: quantos estão voltando, quantos passam por hora em tal lugar e, logicamente, a estatística informando a quantidade de mortos, quantos estão feridos, isto depois de todos aqueles intermináveis avisos e apelos. Detalhe: nunca ouvi alguém dizer: “A ‘moça da TV’ falou que não devemos correr, vou maneirar…”.

Finalmente, declaro que respeito posições em contrário, mas reafirmo que essas notícias não me interessam, nem me comovem, já as decorei, sei o que um cidadão maior de idade e responsável pode fazer, ou deixar de fazer. A escolha é de cada um – ponto. Quero que surjam outros assuntos no verão, também…

Mas não vale reportagens sobre enchentes e seca… Estou cansado de assistir nosso povo chorando na TV, desesperado, dizendo que perderam tudo, que a miséria bateu em suas portas. Dizem que o Brasil é hoje a sexta economia do mundo, precisamos, com urgência, ouvir também que a corrupção acabou, que recursos são usados na prevenção que evitará tragédias que se repetem. Enfim, está na hora de vivermos melhor. A felicidade precisa ser repartida por todos, em todas as estações.