O assunto do momento é o julgamento do assassino da menina Eloá. Fiquei impressionado quando a defesa arrolou a mãe da vítima como “testemunha de defesa”… Desisti desse assunto, prefiro comentar o Brasil num todo – estou com a sensação de que precisamos começar tudo de novo… Como é impossível os portugueses “descobrirem” novamente o país, está na hora de refundá-lo. Com o devido respeito aos ufanistas, acho que essa tarefa precisa ser realizada, é evidente que nesse meio milênio foi construído apenas um projeto de nação.

Não adianta culparem Dom Pedro, Getúlio, Juscelino, Jango, Jânio, Collor, Sarney, Fernando Henrique, Lula, Dilma, militares, socialistas, capitalistas, e sei lá mais quem. Ninguém suporta mais a existência de privilégios somados a uma corrupção sem fim, na qual inescrupulosos se unem para extorquir o Brasil e o povo brasileiro. Dizem que é difícil puni-los, que é culpa do “Ordenamento Jurídico”, monstrengo que só falta admitir que corrupção vire lei, que permite que processos se arrastem, esquecendo que justiça tardia é injustiça.

Quando infratores são presos ou processados, é grande a repercussão, manchetes vendem jornais, a televisão tem a audiência aumentada, mas logo tudo cai no esquecimento. Sem demora, “figuras carimbadas” voltam ao cenário público e político, “ressuscitados”, muitas vezes, pelos mesmos que exigiam punição. Ao constatar isso, é impossível acreditar que ninguém tentou mudar esse estado de coisas, mas algo precisa ficar claro: essa missão é pesada demais para uma pessoa, ou para um partido político e sua ideologia.

A construção de um país ético e justo é missão para todos. O povo não pode ficar unido apenas em Copas do Mundo de futebol. A união precisa acontecer também para exigir que a corrupção e os privilégios tenham fim, para impedir que o “jeitinho brasileiro” deixe tudo do jeito que está, com muitos recebendo salários incompatíveis com a realidade, amparados por legislações absurdas, que permitem um tratamento desigual entre funcionários dos poderes da República. Exemplo disso: policiais legislativos recebem salários maiores do que policiais com muito mais atribuições, que arriscam suas vidas em defesa da sociedade.

Para isso ser mudado, é preciso mais do que exceções à regra. Está na hora dos brasileiros deixarem de achar normal o anormal, como acontece quando uma fila é desrespeitada, quando o fisco precisa usar helicópteros para identificar mansões clandestinas, quando é pedida uma sinecura para um parente, quando uma vaga de deficiente é ocupada indevidamente, provas escolares são fraudadas, agentes públicos são subornados, alguém consegue uma licença médica sem estar doente, ou vendem remédios que deveriam ser doados aos pobres, e tantos outros comportamentos reprováveis.

Sem esquecer que políticos acusados de corrupção precisam deixar de afrontar a nação quando dizem que são inocentes, apesar de todas as evidências em contrário; que só saem à bala de postos que não honraram; que o cargo é “cota” de seus partidos. Mais: a maioria não votou nessa gente, não votou no partido deles. Por que a presidenta precisa nomeá-los para viabilizar um governo que conquistou legitimamente nas urnas? Mais ainda: não pode ser esquecido também que alguns foram filmados com dinheiro escondido em pastas, em cuecas; recursos que poderiam ter sido investidos na saúde, na educação, num sistema de segurança no qual policiais com salários aviltantes precisam fazer greves, deixando cidadãos indefesos sofrendo todo tipo de violência e constrangimento.

Talvez seja preciso muitas gerações para que esses comportamentos sejam banidos. Para que entendam que segurança, saúde e educação são serviços essenciais, que os profissionais que trabalham nessas áreas precisam ser respeitados e valorizados. É evidente que policiais que dão segurança para o povo não podem ganhar salários de fome – se não podem fazer greves, não podem passar necessidade. Da mesma forma, os professores que formam as novas gerações, e, certamente, os médicos e serventuários da área de saúde que tomam conta de doentes, às vezes até salvando suas vidas.

Quando os brasileiros se derem conta da força que têm, talvez esses absurdos sejam corrigidos. Ver brasileiros comendo lixo debaixo de viadutos, ou admitir que condenados paguem suas penas em locais desumanos é abominável. Não podemos deixar que o desespero nos torne coniventes com toda essa porcaria – um país mais justo precisa ser construído. Há cinco séculos um projeto procura uma nação. O Brasil precisa ser refundado, é preciso começar tudo de novo!

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